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A Recuperação das Funções dos Ecossistemas da Gorongosa

10 Abril, 2017
Marta Correia, Doutoranda, Centro de Ecologia Funcional, Universidade de Coimbra e Sérgio Timóteo, Investigador de Pós-Doutoramento
 
Um ambicioso projeto de restauro ecológico, em conjunto com um reforço da proteção legal têm contribuído para a recuperação das mais carismáticas espécies do Parque Nacional da Gorongosa. Uma das principais ações passou pela construção, em 2006, de um santuário para a vida selvagem, com 62 km2, com o objetivo de proteger os animais transferidos a partir de outros locais (principalmente búfalos e bois-cavalos), até que as suas populações fossem suficientemente grandes para libertação dentro do parque. Em poucos anos a densidade e diversidade de animais dentro do santuário aumentou rapidamente, e as populações de algumas dessas espécies mais que duplicaram o seu número de indivíduos (por exemplo, boi-cavalo e piva). No entanto, para uma proteção efetiva dos ecossistemas naturais é necessário mais do que recuperar as espécies, é também preciso garantir a recuperação dos processos e das funções que permitem a sustentabilidade dos ecossistemas a longo prazo.

 

A nossa equipa de investigadores da Universidade de Coimbra, em colaboração com o Parque Nacional da Gorongosa e com o Projecto de Restauração da Gorongosa, esteve nos últimos anos a avaliar a recuperação dos sinais vitais da Gorongosa. O objectivo desta investigação passa por perceber se a recuperação das populações animais pode realmente restaurar o serviço de dispersão de sementes que os animais providenciam às plantas.
 
Trabalho de Campo
 
Nesse sentido, foi usada a teoria de redes para explorar esta questão e entender como as espécies interagem entre si, uma vez que estas estão interligadas numa complexa teia de relações. Empregando a teoria das redes é possível ver para além do papel individual de cada espécie, e permite uma visão mais abrangente em que também são tidas em conta as interações entre os diferentes grupos de espécies ao nível de toda comunidade. Ao estudar o padrão dessas interações, podemos compreender o funcionamento global de um determinado processo do ecossistema, e entender as potenciais consequências de alterações do meio sobre as comunidades biológicas.
 
Esta abordagem tem demonstrado ser uma ferramenta valiosa em estudos de dispersão de sementes a nível da comunidade, e em particular na avaliação da eficácia de projetos de restauração ecológica. Para identificar as interacções de dispersão de sementes percorremos vários transetos para recolher amostras fecais de todas as espécies animais possíveis. Estas amostras foram posteriormente examinadas, e todas as sementes encontradas intactas foram identificadas através de comparação com uma coleção de referência ou por técnicas moleculares.
 
Marta Correia e Sérgio Timóteo no Laboratório de Biodiversidade E.O. Wilson
 
Os resultados deste estudo foram recentemente publicados na revista Conservacion Biology, com o título: “The refaunation and the reinstatement of the seed-dispersal function in Gorongosa National Park”. Nele mostramos que a recuperação das populações animais se está a traduzir num aumento do serviço que estes prestam às plantas enquanto dispersores ativos das suas sementes para novos locais, onde novas plantas poderão crescer. Isto resulta de um aumento na complexidade da rede de interações entre plantas e os seus dispersores no santuário de vida selvagem (Figura 1). Este trabalho vem mostrar que colocando de volta as “peças” que desapareceram com a guerra (i.e. os animais), a “máquina” que mantém a diversidade dos ecossistemas da Gorongosa pode começar de novo a funcionar. Os sinais para a recuperação e conservação deste sistema são, portanto bastante animadores, não só para a vida na Gorongosa como para outros locais que passaram por situações semelhantes.
 
O artigo encontra-se disponível na íntegra através deste link
 
 
Figura 1. Redes quantitativas de dispersão de sementes dentro do Santuário (a) e fora do Santuário (b). Ambas as redes são baseadas no mesmo esforço de amostragem e estão representadas à mesma escala. As caixas verdes representam as espécies de plantas dispersas, as caixas pretas os animais dispersores (as caixas a amarelo representam os dispersores exclusivos do Santuário), e os “links” cinzentos representam as interações. A largura de cada “link” é proporcional à frequência de ocorrência de sementes intactas nos excrementos dos animais. Dispersores (nome comum): a. Impala, b. Duiker, c. Macaco vervet, d. Civeta africana, f. Palanca-negra, g. Porco espinho, h. Piva, r. Elefante africano, i. Texugo-do-mel, j. Oribi, k. Babuíno, l. Javali africano, m. Redunca, n. Elande, o. Inhala, p. Cudu eq. Imbabala. Plantas: 1. Acacia nilotica, 2. Amaranthus dubius, 3. Bobgunnia madagascariensis, 4. Bridelia mollis, 5. Cassia abreviatta, 6. Catunaregam sp., 7. Centaurea praecox, 8. Cucumis africanus, 9. Cyperus sp., 10. Dicrostachys cinerea, 11. Diospyros mespiliformis, 12. Diospyros senensis, 13. Diospyros squarrosa, 14. Eriochloa meyeriana, 15. Grewia caffra, 16. Grewia inequilatera, 19. Grewia sp., 20. Hyphaene natalensis, 21. Indigofera sp., 22. Luffa cylindrica, 23. Mimusops obtusifolia, 24. Opuntia sp., 25. Panicum coloratum, 26. Pistia stratiotes, 27. Salicaceae 28. Sclerocarya birrea, 29. Solanum incanum, 31. Sporobolus panicoides, 32. Tabernaemontana elegans, 33. Tamarindus indica, 34-48 espécies de sementes não identificados, 45. Xanthocercis zambesiaca e 46. Ziziphus mucronata.
 

 

Categoria: 
Science