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A Gorongosa em Constante Transformação - Actualização de Pesquisa

27 Fevereiro, 2017
Por Josh Daskin, doutorando pela Universidade de Princeton  
 

Ao longo das últimas décadas tem vindo a ser estabelecido pelos ecologistas o pressuposto que os habitats não são estáticos, vão-se transformando ao longo dos tempos, reagindo a perturbações como incêndios ou cheias assim como outros processos graduais menos intensos. O enorme declínio de mamíferos na Gorongosa, sendo causado pelo homem, é também uma perturbação que pode potenciar alterações em cadeia nos habitats do parque assim como a forma como as espécies fazem uso deles.

 
Cobertura arbórea na savana da Gorongosa observada de um pequeno avião em 2012.
 
Fazendo parte da minha tese de doutoramento, calculei uma destas alterações ao readaptar imagens não-secretas de um satélite espião Americano. Calculei a vegetação lenhosa da Gorongosa antes (em 1977) e depois (em 2012) do declínio dos mamíferos, impulsionado pela Guerra, ao preparar um programa de levantamento capaz de reconhecer árvores e arbustos, e mostrei que a perda quase total de grandes mamíferos levou ao aumento de 34% da cobertura de árvores ao longo do parque; a vegetação arbórea mais do que duplicou em algumas zonas. Os elefantes têm o hábito de derrubar árvores com frequência. Na presença de muito menos elefantes e menos antílopes a comer plantas lenhosas, mais árvores germinaram e cresceram na savana.
 
O desmatamento das florestas está entre as maiores ameaças à biodiversidade tropical (especialmente nas florestas tropicais, mas também nas savanas); no entanto, um maior número de árvores não corresponde necessariamente a um dado positivo numa savana, onde as espécies se adaptam a uma mistura de árvores e capim. Relativamente a este caso, os levantamentos de vegetação que conduzi na Gorongosa demonstram que zonas sombreadas por árvores que cresceram desde o declínio de mamíferos impulsionado pela guerra podem reduzir a diversidade de espécies de capins e plantas selvagens no sub-bosque de 20 a 50%!
 
A possibilidade de redução da diversidade é preocupante por si só mas os grandes mamíferos, fundamentais na recuperação da Gorongosa depois da guerra, podem também ser afectados. Havendo zonas que anteriormente eram adequadas para habitats de savana, sendo agora mais adequadas para floresta, os antílopes que estavam habituados aos habitats de savana provavelmente não têm acesso às áreas que tinham anteriormente. Para se entender como é que as populações de mamíferos em recuperação na Gorongosa seleccionam o seu habitat num ambiente em constante transformação, estabeleci uma colaboração permanente com os Professores Rob Pringle da Universidade de Princeton e Ryan Long da Universidade de Idaho e tenho estudado os movimentos de três espécies de antílope: a imbabala, inhala e o cudo. 
 
Imbabala num contexto de mistura de acácias amarelas (Acacia xanthophloea) e acácias espinhosas de inverno (Faidherbia albida).
 
O Ryan encarregou-se de pôr coleiras GPS em cerca de 12 animais de cada espécie e automaticamente ficámos a conhecer a localização de cada animal de hora a hora durante 9 meses (totalizando quase 300 000 locais!). Entretanto, utilizei imagens de satélite para fazer um mapa detalhado à escala dos habitats arbóreos em contraposição aos áridos. Estou agora a comparar os locais utilizados pelos antílopes com a gama completa de habitats disponíveis.
 
Os resultados preliminares sugerem que a imbabala e a inhala preferem zonas arbóreas enquanto o cudo tende a ir para zonas mais áridas. Isto faz sentido se considerarmos a distinção óbvia entre as três espécies, o seu tamanho. Tanto a mais pequena imbabala (40kg para o adulto completamente desenvolvido) como a inhala (90kg) utilizam a cobertura arbórea para se protegerem dos predadores. O cudo, sendo o maior das três espécies (200kg), é menos vulnerável aos leões da Gorongosa. Até agora parece que a maior cobertura arbórea não suscita problemas para a imbabala e a inhala mas poderá manter o cudo fora de algumas áreas do parque. 
 
Cudo macho comendo Combretum imberbe.
 
A curto prazo, enquanto a população de mamíferos da Gorongosa continua a crescer para os níveis anteriores à guerra, a disponibilidade de habitat não parece ser a maior limitação para a sua recuperação, mesmo tendo em conta o aumento da vegetação lenhosa até à data. Pelo contrário, o maior obstáculo poderá ser o crescimento natural da população; no extremo do lado mais lento temos os elefantes com um período de gestação de 22 meses, enquanto a maioria dos mamíferos de grande porte rondam os 8 meses como o cudo. Entretanto, os fiscais do parque continuam os seus esforços contra a caça furtiva que, juntamente com os programas socioeconómicos do parque, visam que a fauna bravia da Gorongosa não seja utilizada como um recurso descartável.
 
Uma grande extensão da Gorongosa permanece como vastas planícies (que são adequadas para herbívoros como os bois-cavalos, búfalos e zebras) ou savana com árvores dispersas (preferidas entre outros pelas imbabalas, inhalas e cudos). Dito isto, a invasão desenfreada de plantas lenhosas tem tido efeitos nefastos noutras savanas. Temos por exemplo na África do Sul o Addo Elephant National Park, em que se desenvolveram matas densas onde havia poucos elefantes, limitando os movimentos dos leões e a sua actividade de caça.
 
Apesar da baixa densidade de elefantes nos últimos 35 anos ter provocado um aumento da cobertura arbórea, o futuro poderá trazer mais mudanças. Agora que a população de elefantes está novamente a crescer, áreas recentemente tomadas por árvores poderão ser reabertas. Mantendo um olhar para o futuro, iniciei mais um projecto em que controlamos várias manchas de árvores que se desenvolveram no pós-guerra. Comecei por seguir o destino de cerca de 700 acácias amarelas. De acordo com o meu trabalho de levantamento e o testemunho dado por fiscais de longo curso da Gorongosa, esta espécie tornou-se muito mais comum desde a guerra; também é um alimento favorito dos elefantes. Ao sinalizar árvores individualmente e voltar para verificar a sua presença anualmente, irei calcular aquilo que penso ser um impacto crescente dos elefantes no panorama da Gorongosa. É possível que os elefantes e outras espécies venham a recuperar a tempo de se evitarem os impactos fortes do aumento da cobertura arbórea que até aqui se desenvolveu.
 
 
Categoria: 
Science
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