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Anotações no Terreno: Ensinamentos dos Esquilos

19 Março, 2017
Depois de uma longa viagem pela estrada infestada de buracos desde a Beira, entrei no parque pela primeira vez ao pôr-do-sol. Este iluminava a densa floresta fluvial ao longo do Rio Púnguè, com um brilho vermelho de boas-vindas. As árvores frondosas prometiam esconder uma manada inteira de elefantes. Um contingente de macacos-cães amarelos, cerca de trinta ou quarenta, povoavam a estrada de terra e saíam do caminho assim que o carro se aproximava. Eu assistia a tudo com ansiedade e espanto.
 
O autor, Yannick Bindert, com a sua câmara em Bornéu.
 
Era aqui que eu ia trabalhar ao longo dos seis meses seguintes.
 
Uma manhã apenas alguns dias mais tarde, Fraser, o guia principal levou-me para a Floresta de Solo de Areia a noroeste da sede do parque, Chitengo. A Floresta de Solo de Areia é um habitat muito particular, caracterizado pelos seus solos arenosos e acolhendo algumas espécies únicas de árvores — como a eminente Newtonia hildebrantii — e da vida selvagem — como o elusivo Cabrito Vermelho. Atravessa as planícies de pastagem que a cercam e termina tão bruscamente como começa: com uma parede de árvores. Estávamos na prospecção de um local para o primeiro acampamento avançado ao longo da margem da floresta, quando Fraser me perguntou: "Estás a ouvir isto?"
 
Escutei e tentei discernir um chamamento que não soava como os suspeitos do costume. Havia um distinto 'tchip-tchip-tchip' que atravessava a floresta, o que me fez pensar que estávamos a escutar o chamamento de aves endémicas da floresta. Quando eu perguntei ao Fraser o que era, ele simplesmente aconselhou-me a pegar na minha câmara e ir ao encontro da fonte do chamamento — que parecia estar perto.Levado por um misto de curiosidade e perplexidade, entrei na floresta seguindo o chamamento cuidadosamente para permanecer indetectável. Depois de alguns minutos à procura de pássaros na orla superior, os meus olhos detiveram-se num clarão de movimento vermelho-alaranjado, saltando através dos ramos. Eu fiquei absolutamente quieto, os meus olhos seguindo-o até que o clarão paralisou para me olhar directamente.
 
Aí proferiu um alarmado 'tchip-tchip-tchip!'
Descobri quem vinha fazendo toda aquela algazarra: um par de esquilos-vermelhos do mato.
Aproveitei para tirar algumas fotos deles e voltei para relatar os meus resultados. Com um sorriso, Fraser disse que eu deveria deixar as fotos na base de dados de biodiversidade do Laboratório de Biodiversidade E.O.Wilson em Chitengo.
 
Um dos esquilos-vermelhos do mato (Paraxerus palliatus) mencionado na história.
 
O esquilo-vermelho do mato (Paraxerus palliatus) pode ser considerado comum excepto pela sua pele, que é de um vermelho ardente e cinza escuro. São geralmente um pouco maiores do que os seus parceiros europeus e norte americanos e podem ser encontrados principalmente em florestas ao longo da costa leste de África. Embora o esquilo-vermelho do mato seja considerado uma espécie de 'menor preocupação' para o risco de extinção pela IUCN (International Union for Conservation of Nature [União Internacional para a Conservação da Natureza]) — e não sendo tão apelativo como, digamos, o Papa-Figos de Cabeça Verde endémico na Serra da Gorongosa — as poucas fotos que eu tinha tirado eram os primeiros registros fotográficos da espécie no parque. Senti um enorme sentimento de orgulho: na minha primeira semana no trabalho, tive a sensação de ter feito uma contribuição perene, por pequena que fosse, para o melhoramento e a preservação da Gorongosa. 
 
Era o começo daquilo que se tornou um projecto pessoal durante o tempo que estive no parque: ao longo da minha estadia, periodicamente deixava fotos na base de dados e fiz o melhor que pude para ajudar os cientistas que lá trabalhavam. 
 Resultou em colaborações, amizades e experiências maravilhosas.
Pensar que tudo começou com um par de minúsculos esquilos-vermelhos do mato... Esta espécie 'banal' que me levou a relacionar com a fauna e a flora do parque a muitos níveis e me motivou a aprender sobre espécies individuais e como elas interagem umas com as outras. Eu nunca tinha sido um verdadeiro cientista: tive más notas em biologia, química e física na escola e adormeci durante a minha introdução à aula de ciência ambiental na faculdade. No entanto e graças aos esquilos, descobri que eu também podia contribuir em pequenas mas significativas maneiras para os esforços da ciência e da conservação.
Categoria: 
Science