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Em Moçambique, um Laboratório Vivo para a Renovação da Natureza

19 Agosto, 2018
Parque Nacional de Gorongosa,  Moçambique - Os 14 mabecos estavam como que alucinados, correndo de um lado para o outro ao longo da vedação do recinto cercado ao ar livre ou “boma”, saltando loucamente em forma de pulos, tagarelando as suas distintas chamadas de mabecos e, abanando a sua cauda espessa de pontas brancas como competidores em um jogo de entretenimento, desesperados para serem vistos.
 
Desde que chegaram ao parque há três meses e à medida que se foram ambientando ao seu novo cenário e forjaram o tipo de ligações imiscíveis que fazem dos Lycaon pictus um dos mamíferos mais sociais do mundo, os mabecos acostumaram-se ao desfrute diário de um antílope recém-abatido como parte do seu banquete.
 
Entretanto, já passavam quase 48 horas desde a última refeição da alcateia, e olá, está aí alguém?
 
Ah, aqui vêm o camião de comida. A Senhora Paola Bouley, Directora-Adjunta de conservação de carnívoros do Parque e dois dos seus colegas, conduziram até a entrada da vedação numa camioneta de caixa aberta, abriram o portão, colocaram o veículo dentro da “boma” e começaram a descarregar a carcaça de um impala macho.
 
Enquanto se encontravam na traseira do camião, a Senhora Bouley segurava uma corda amarrada às patas traseiras do antílope, com a intenção de atrair os mabecos do conforto do seu recinto cercado, arrastando lentamente o seu "mata-bicho" para fora. Boa ideia, mas os mabecos estavam impacientes e não podiam esperar.
 
Estes agarraram forçosamente a carcaça, tentaram estripá-la no ar, puxando a corda tão violentamente que praticamente deixaram cair a Senhora Bouley apesar desta ser extremamente ágil. Pára, pára! Gritou ela.
 
Novo plano: vamos amarrar a corda à camioneta.
 
Mais uma vez, atrair os mabecos do conforto do seu recinto fechado, avançar em direcção ao portão. Desta vez os mabecos seguiram,  as suas peles da cor de camuflagem militar, as suas orelhas do tamanho de saboneteiras. Um, dois, três, quatro, uma dúzia deles.
 
Os mabecos saltaram para a liberdade e caíram sobre a impala em massa, assim como os cientistas esperavam que o fizessem. Excepto que algo estava errado. Os mabecos pararam de comer. Eles começaram a correr numa grande confusão.
 
Um mabeco estava em falta, e não era apenas qualquer mabeco: era o mabeco principal, a fêmea alfa da alcateia. Onde estaria a rainha deles?
 
Os cientistas também se agitaram preocupados.
 
"É a Beira - ela ainda está lá dentro!" disse a Senhora  Bouley, referindo-se ao nome escolhido para a fêmea alfa pelos alunos da escola local em homenagem à capital da sua província.
 
Aproximando-se aos observadores reunidos, a Senhora Bouley disse: “Ela não vai sair. Ela é cautelosa. Ela sempre foi cautelosa.
 
Agora mais do que nunca: Beira estava grávida de filhotes que a alcateia inteira ajudaria a criar. Houve muita comoção. "Lamento mas tenho que vos pedir para se retirarem", disse a Senhora Bouley.
 
É difícil tentar ressuscitar um dos parques nacionais mais célebres e biologicamente diversificados de África de um estado de quase aniquilação, resultado de uma guerra civil brutal que durou 16 anos em que, cerca de um milhão de moçambicanos foram mortos e uma grande parte da vida selvagem de Gorongosa destruída. Difícil, mas não impossível.

 

 

Macacos-cães e peixes-gato de dente afiado no Rio Mussicadzi localizado dentro do Parque durante a estação seca. Os macacos-cães da Gorongosa são insolentes e abundantes, pois não existem muitos leopardos para os manter sob controle. Crédito: Piotr Naskrecki & Jen Guyton / NPL/Minden Pictures

 

 

Trinta minutos depois de dispersar os seus convidados, a Senhora Bouley enviou uma actualização mais alegre: todos os membros da alcateia haviam saído do recinto e o portão havia sido fechado para impedir a sua reentrada. Os mabecos haviam terminado o seu  último "mata-bicho/almoço" gratuito e estavam a explorar a zona, claramente ansiosos para retomar a sua carreira como equipa de caçadores por excelência.
 
"Este é um momento muito especial para mim", disse Pedro Muagura, Administrador do Parque da Gorongosa. Em Moçambique, disse ele, muitas famílias têm um animal de significância espiritual e na minha família é o mabeco.
 
No entanto, até a alcateia de 14 mabecos terem sido transferidos de vários locais do Leste da África do Sul como parte do plano de restauração do Parque de Gorongosa, a única vez que o Senhor Muagura encontrou um mabeco foi devido a um atropelamento mortal.
 
“Ver mabecos vivos no meu próprio país e libertá-los em Gorongosa”, disse ele, quase em lágrimas, “isso é uma coisa linda”.
 
Durante os dias que se seguiram, os efervescentes carnívoros conseguiram devorar outra impala e dois belos inhacosos de água com marcas brilhantes de alvo nas suas traseiras. Estes são muito comuns em Gorongosa.
 
A gravidez da Beira era cada vez mais visivelmente e, a alcateia estava a cavar a sua toca. Os leões já não eram mais os únicos residentes carnívoros capazes de manter as manadas de mamíferos em pastoreio sob o seu controle.
 
Outro predador de destaque, ausente há várias décadas nos 4.000 quilómetros quadrados do Parque, estava de volta - mais evidências ainda de que Gorongosa está no caminho certo para um segundo espectáculo de grande envergadura.
 
Uma Experiência Massiva
 
Com o nome de uma montanha na borda do Parque que, por sua vez, recebeu o nome do termo em Mwani de “lugar de perigo”, Gorongosa está longe de ser o maior parque nacional ou reserva de caça de África. O Parque Nacional de Kruger, na África do Sul, tem quase cinco vezes o seu tamanho. Gorongosa nem sequer é o maior parque de Moçambique.
 
No entanto, Gorongosa distingue-se dos muitos destinos de safari fotogénico do continente como uma espécie de laboratório vivo, uma experiência contínua sobre como a natureza se recupera, equivalente a um enorme evento de hemorragia onde algumas partes curam-se melhor quando deixadas intactas e outras requerem infusões de sangue novo.
 
Gorongosa atraiu a atenção de cientistas de todo o mundo que vêem uma oportunidade para abordar, em tempo real, questões fundamentais de ecologia, evolução, ascensão, queda e movimentos bem como mudanças na  distribuição de espécies, naquilo a que os investigadores chamam de "paisagem do medo".

 

Inhacosos - raros em outras reservas, mas com um número de 50.000 ou mais em Gorongosa - a pastar numa zona húmida. Crédito: John Wessels/Agence France-Presse - Getty Images

 

As imbabalas da Gorongosa, por exemplo, normalmente aventuram-se para longe da folhagem que os escondem em redor de termiteiras que albergam insectos e onde tradicionalmente se podem encontrar estes antílopes tímidos e esguios. Pelo contrário, as imbabalas da Gorongosa pastam em campos abertos com a arrogância de búfalos ou zebras africanas.
 
Será que isso é bom, neutro ou destrutivo para o habitat local - para a mistura de vegetação e as suas multidões de micro fauna, fluxo de água, ciclo de nutrientes, para a facilidade com que os besouros-do-esterco podem colocar o generoso fruto do seu trabalho em uso? E quando é que as despreocupadas imbabalas se irão aperceber que os predadores de Gorongosa estão a multiplicar-se e a virem na sua direcção?
 
Gorongosa é ao mesmo tempo mais ou menos “natural” do que outras reservas de caça em África. "Não há vedação ao redor de Gorongosa, e é assim que um parque deve ser", disse Test Malunga, um guia de campo do Parque.
 
Ao mesmo tempo, a administração do parque, com a bênção do governo de Moçambique, decidiu “encorajar e promover activamente a ciência”, disse Robert Pringle, ecologista da Universidade de Princeton que faz parte do conselho de administração do Projecto Gorongosa.
 
Como resultado, os pesquisadores não estão confinados a simples estudos observacionais da fauna bravia livre no Parque. Eles podem manipular as condições de campo para restringir os estímulos de movimento dos animais e as escolhas de forrageamento. Eles podem anestesiar animais para recolher amostras de sangue, medir os seus sinais vitais e, em seguida, equipá-los com coleiras de GPS - e para os elefantes, isso significa colares suficientemente grandes que caibam em redor do tronco de um carvalho.
 
"Muitos parques limitam ou até mesmo proíbem essas actividades", disse Pringle. "Mas sem elas, não podemos ter uma estratégia de gestão verdadeiramente baseada na ciência ou responder definitivamente a perguntas candentes na vanguarda do conhecimento ecológico".
 

 

Em meados dos anos 1990, após a guerra civil em Moçambique, eram escassos os leões em Gorongosa. Crédito: Jen Guyton/Minden Pictures.

 

Gorongosa também tem uma sorte sobrenatural por ter um rico benfeitor dedicado à restauração e ao futuro do Parque.
 
Desde 2004, Gregory C. Carr, que fez fortuna em telecomunicações antes de se dedicar à filantropia e à defesa dos direitos humanos em tempo integral, gastou dezenas de milhões de dólares no parque e nos quase 3.500 quilómetros quadrados da chamada zona tampão que o cerca, onde algumas das comunidades mais pobres em Moçambique e, portanto, do mundo, podem ser encontradas.
 
O Senhor Carr, 59 anos, é infalivelmente simpático, determinado e sociável, uma espécie de L. pictus com um boné de beisebol, sempre procurando novas conexões, novas ideias para ajudar o Parque e o seu povo, novas maneiras de conquistar os cépticos e criar pontes onde existe divisão política. Apesar das recorrentes disputas de guerrilha na região, o Senhor Carr disse: "Acho que o Parque fez um bom trabalho em ser amigo de todos".
 
A sua fundação e vários doadores aderentes à causa, investiram em escolas, clínicas móveis, apicultura, plantações de café sustentáveis, clubes de raparigas locais e um programa de mestrado em biologia de conservação para estudantes moçambicanos. A sala de aula é a Gorongosa.
 
"É o único programa de biologia de conservação no país", disse o Senhor Carr. "Dizem que pode ser o único no mundo ensinado inteiramente num parque nacional".
 
Ainda assim, desafios socioculturais espinhosos prevalecem. O Senhor Carr é um americano branco com muito dinheiro e, embora a Gorongosa seja um parque nacional que pertence inteiramente a Moçambique, a Senhora Larissa Sousa, que trabalha no departamento de desenvolvimento humano do parque, disse que muitas pessoas na região acreditam que o Senhor Carr é o dono de Gorongosa mas no entanto nunca sequer estiveram dentro do Parque.
 
Na verdade, o Parque de Gorongosa foi fundado em 1960 por Portugal durante o período de colonização, em grande parte para satisfazer o prazer de aventureiros ocidentais ricos. Contudo, este foi rapidamente reivindicado como um tesouro nacional quando Moçambique conquistou a sua independência em 1975.
 
Por detrás do esplendor do parque, explicou Piotr Naskrecki, Director-Adjunto de Investigação em Gorongosa, está a sua localização no extremo Sul do Grande Vale do Rift de África, uma formação geológica massiva que, ao longo de milhões de anos, canalizou enormes quantidades de biodiversidade para a região central de Moçambique.

 

 

Elefantes sem pontas percorrem o parque, em número crescente, uma vez que os caçadores furtivos não os matam pelo marfim. Crédito: Jen Guyton/Minden Pictures.

 

A Leste do Rift (fenda), existe pedra calcária mole, amassada e enrugada pela água em cavernas e desfiladeiros, dando origem a florestas ribeirinhas, repletas de morcegos, grilos, moluscos e milípedes endémicos que se desenvolvem com a recompensa do cálcio da pedra calcária.
 
Na zona Oeste, existem granitos duros e solos graníticos que alimentam uma assembleia inteiramente diferente de formas de vida, como uma espécie de lagarto recém-descoberta que se enterra profundamente nas fendas das rochas, bem além do alcance de um predador.
 
No meio estão as planícies aluviais posicionadas sazonalmente entre a inundação e a drenagem, com solos pretos com os nutrientes concentrados nos quais a vegetação pode florescer e manadas de herbívoros podem engordar.
 
Abrangendo elevações a 2.000 metros acima do nível do mar, no topo da Serra da Gorongosa, o Parque é uma excelente mistura de “quase todos os habitats concebíveis”, disse o Dr. Naskrecki: floresta alpina, prado montanhoso, savana florestal, pradaria, matagal, um toque de verdadeira floresta tropical.
E quando passeamos nele, em estradas com sobressaltos tão profundamente encrespados,  sentimo-nos como umas castanholas humanas e, apercebemo-nos que nunca fomos tão felizes na nossa vida.
 
Desastre Ecológico
Nos anos 80, a música parou. A guerra civil irrompeu, o Parque foi fechado e as forças do governo e dos rebeldes transformaram Gorongosa num campo de batalha e num matadouro improvisado.
 
Os elefantes foram massacrados por causas das suas valiosas trombas. Elandes, pala-palas, bois-cavalos (gnus), zebras e outros grandes herbívoros foram caçados para o consumo da sua carne ou por desporto. Leões, leopardos e hienas foram mortos por serem um entrave e, muitos animais simplesmente morreram de fome.
 
Quando a luta e a caça desenfreada terminaram em meados da década de 1990, o censo dos grandes mamíferos havia sido reduzido em 95%, para números muito reduzidos: 15 búfalos africanos aqui, seis leões ali, cinco zebras, algumas dúzias de hipopótamos e elefantes. A infraestrutura do Parque havia sido destruída. Apenas a vida das aves da Gorongosa, cerca de 500 espécies de renome, sobreviveram relativamente de uma forma intacta.
 
A faina bravia do Parque começou a recuperar, mas lentamente, e ao visitar o Parque em 2003, o Senhor Carr disse: "Eu poderia conduzir o dia todo pelo parque e não ver um único animal". Depois de consultar uma vasta gama de especialistas, o Senhor Carr propôs ao governo Moçambicano uma parceria público-privada que ele esperava que apressasse a recuperação da grandeza de Gorongosa e também fortalecesse a economia.
 

 

Em 2010, fiscais e trabalhadores com um búfalo sedado para relocalização em Gorongosa. Crédito: Gianluigi Guercia/Agence France-Presse - Getty Images

 

"Ser um motor económico e promotor dos direitos humanos ao mesmo tempo, é uma nova maneira de pensar em parques nacionais", disse o Senhor Carr. "As pessoas que vivem por aqui têm o direito de viver em um ambiente decente que possa sustentá-las pois esta é a sua pátria".
 
A equipa começou por reintroduzir os maiores herbívoros, importando 200 búfalos e 200 bois-cavalos (gnus) da África do Sul. À medida que a maior parte dos herbívoros começaram a pastorear os campos cobertos de vegetação, o conjunto de espécies menores de antílopes do parque, com seus chifres sinuosos e caligráficos e seus rostos de Modigliani, conseguiam-se alimentar e reproduzir-se de maneira mais confiável.
 
A expansão das opções de presas logo elevou a contagem de leões, o que por sua vez começou a atrair turistas para os quais um avistamento de leão é sinónimo de umas férias de safari. Mas os leões, por si só não conseguiam aguentar com as fileiras de herbívoros e omnívoros e, os cientistas de Gorongosa aperceberam que o parque precisava de um grupo de predadores mais diversificado que exploram os mesmos recursos.
 
Onde estavam os leopardos? Os leopardos são os maiores e mais difundidos felinos do mundo mas, por razões misteriosas eles não encontraram o caminho de volta para Gorongosa. Como resultado, os macacos-cães da Gorongosa, um item favorito do cardápio dos leopardos, estão a reproduzir-se como esquilos cinzentos, devorando tudo em que podem colocar seus dedos não-atarefados e movendo-se sem medo pela paisagem.
 
"Não vemos noutro lugar de África macacos-cães no chão à noite ou dormindo no chão", disse Pringle. "Mas aqui vemos."
 
Os esforços dos pesquisadores em importar leopardos de outras partes de África mostraram-se desafiadores do ponto de vista legislativo daí que estes ficaram entusiasmados quando um leopardo adulto, um imigrante voluntário da zona tampão, apareceu em finais de Março e parece que ainda está por aí.
Os cientistas admitiram que erros foram cometidos. "Tentámos introduzir chitas", disse o Dr. Naskrecki, "mas aprendemos que este não é o meio ambiente certo para eles e, historicamente, eles nunca estiveram aqui".

 

 

Um mabeco na Gorongosa. Uma alcateia destes já foi reintroduzida e uma segunda será introduzida no próximo ano. Crédito: Brett Kuxhausen/Gorongosa Media, através da Associated Press.

 

Os mabecos, por outro lado, têm uma história em Gorongosa e estão sob menos restrições comerciais e, a Senhora Bouley afirmou que iriam trazer outra alcateia no próximo ano.
 
Outros aspectos intrigantes do recrudescimento de Gorongosa prevalece. Na maioria das reservas africanas, por exemplo, os inhacosos não são comuns, em comparação com outras espécies de antílopes. Em Gorongosa, o seu número explodiu para 50.000.
 
Uma possível explicação: como uma das poucas espécies capazes de sobreviver durante todo o ano em zonas húmidas de água baixa e alta, os inhacosos podem não ter estado ao alcance durante a guerra e daí, terem  estado bem posicionados para se reproduzirem quando a guerra terminou. 
 
Contudo, o triunfo dos inhacosos pode, inadvertidamente, ter estado por detrás da  recuperação lenta de um outro mamífero amante da água: o hipopótamo.
 
As zebras também tiveram um tempo surpreendentemente difícil de restabelecimento da sua posição no terreno. Por outro lado, os elefantes quase que se reproduziram a níveis numéricos de pré-guerra onde, particularmente a população destas espécies sem presas enriqueceu notavelmente pois foram poupados da ira selectiva dos caçadores furtivos de marfim.
 
"Gorongosa não é um vaso Ming que estamos a tentar restaurar", disse Pringle. "É um ecossistema dinâmico em recuperação" - trabalhando incansavelmente e melhorando o tempo todo.
 
Natalie Angier tornou-se colunista do Science Times em Janeiro de 2007. Ela juntou-se ao The Times em 1990, cobrindo genética, biologia evolutiva, medicina e outros assuntos, e recebeu o Prémio Pulitzer de 1991 na revista Beat Report.
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