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Trabalhar com os Serviços Científicos

Os nossos fiscais estão na linha da frente do esforço de conservação na Gorongosa - removendo armadilhas, replantando árvores e impedindo conflitos entre seres humanos e  elefantes. Mas eles também trabalham lado a lado com o nosso Departamento de Serviços Científicos  no dia-a-dia e em programas especiais. Aqui estão alguns exemplos:

 

Reintroduzir Animais

O rejuvenescimento do Parque Nacional da Gorongosa inclui projectos de relocação de muitos animais. O ecossistema da Gorongosa requer um certo número de tipos de animais e o equilíbrio de cada espécie é essencial para ter florestas e pradarias saudáveis.

À medida que herbívoros tais como búfalos e bois-cavalos (gnus) são reintroduzidos, eles "ceifam” as grandes extensões de capim da Gorongosa. Ao comer o capim mais alto, estes grandes herbívoros, por sua vez permitem aos pequenos herbívoros, como os antílopes, chegar ao capim mais curto, que estes preferem. Isso é chamado de "sequência de pastagem", e é uma parte essencial da cadeia alimentar local, uma série de conexões fundamentais da teia da vida.

 

Diário do Fiscal

Ajudar a capturar búfalos na África do Sul e a trazê-los todo o caminho de volta para a Gorongosa foi definitivamente o maior acontecimento do meu tempo como fiscal na Gorongosa. Os cientistas usaram um helicóptero para juntar todos os búfalos num grande curral, ou numa “boma” como também é chamado. Os búfalos estavam muito agitados, mas tudo foi feito para os manter seguros. Nós pusemos o camião de marcha atrás até ao curral e, em seguida, arrumámos os búfalos no camião. Foi estranhamente fácil! À primeira vista podemos achar que os búfalos, sendo uns animais selvagens tão grandes e poderosos,  poderiam destruir o camião na totalidade, mas eles pareciam ter conforto no facto de que estavam aqui juntos com todos os seus amigos. Uma vez que eles estavam dentro, não podia haver atrasos. Quanto mais tempo os animais selvagens estiverem em cativeiro, maior é probabilidade de um deles se ferir. Eles podem-se magoar no camião. Podem ficar muito quentes e desidratados. E também podem morrer de “stress”. E por isso fomos tão rapidamente quanto possível em direcção a norte. Só parámos para obter combustível e para usar a casa de  banho. Conduzimos durante a noite e no dia seguinte.

 

Na parte da tarde, chegámos à Gorongosa e a nossa equipa estava pronta. Fomos até ao portão do santuário e libertámos a nossa preciosa carga. Eles saltaram para a sua liberdade! Todos estavam bem. Ficaram no santuário durante muitos meses. Precisávamos de ter certeza de que eram saudáveis e nós queríamos que tivessem tempo para se "aclimatarem" à sua nova casa. Todos pareciam gostar da Gorongosa. Eles não sabem, mas a sua deslocalização para a Gorongosa é um grande marco na restauração do Parque. Aqueles búfalos da África do Sul vão desempenhar um papel importante em tornar a Gorongosa, de novo no "lugar onde Noé deixou sua Arca"! Quando eles saltaram do camião naquele dia, o meu coração encheu-se de alegria. E senti-me orgulhoso, porque fui o seu "táxi" desde a África do Sul.”

 

Ajudar os Cientistas

Os nossos fiscais são uma parte vital de todas as emocionantes actividades científicas que acontecem na Gorongosa. No mínimo, enquanto fiscais armados, eles fornecem protecção e segurança, acompanhando os cientistas a áreas remotas do Parque, muitas vezes a pé. Mas muitas vezes eles desempenham outros papéis também. Como especialistas em seguir pistas, os fiscais ajudam os cientistas a encontrar e seguir os animais que eles desejam observar. Sendo excelentes “navegadores”, eles permitem que as nossas equipas científicas vagueiem na imensidão selvagem da Gorongosa, sem se perderem! Para muitos fiscais, essas atribuições podem ser muito interessantes, e às vezes produzir resultados  inesperados!

 

Diário do Fiscal

“Passar noite após noite com os cientistas de insectos quando eles vieram cá em 2012 foi certamente um dos trabalhos mais interessantes que eu já fiz na Gorongosa! Enquanto eles estavam trabalhando em plena escuridão, recolhendo amostras de todos os insectos que aparecem durante a noite, eu estava de vigia prevenindo os perigos que possam aparecer na noite como leões e elefantes. Mal sabiam eles, enquanto tinham o nariz junto ao chão à procura de insectos, que eu estava fazendo o meu trabalho, mantendo-os seguros. Um deles estava interessado em formigas. Ele poderia estar horas e horas andando curvado a olhar para essas pequenas criaturas negras. Às vezes encontrava uma que o fazia ficar muito animado. Algumas dessas formigas ele não conhecia e pensava que muitos delas eram novas espécies, espécies que não se sabia que existiam. Eu conheci estas formigas toda a minha vida, mas este homem da Universidade de Harvard pensa que são uma descoberta incrível!

 

O outro cientista estava interessado apenas em esperanças. Eu sei quais são os que eles chama de "grilos do mato", uns insectos grandes que às vezes parecem pequenos dinossauros cobertos de placas blindadas. Aparentemente, esse cientista era o especialista em esperanças mais famoso do mundo. Eu perguntei-lhe: como é que vai encontrar essas coisas no meio do mato no escuro? Ele disse: "Eu tenho uma arma secreta!" E tirou o que parecia ser um rádio e ligou-o. Imediatamente, uma série de sons estranhos saiu do rádio – ciciares, cliques e guinchos esquisitos. Ele disse que os sons no rádio eram os sons que não se podiam ouvir com os nossos ouvidos - eram sons acima da nossa frequência auditiva. Os cliques, explicou, eram morcegos voando sobre nossas cabeças usando "eco-localização". Ele não estava interessado neles. Ele concentrou-se em um certo tipo de som, uma espécie de canto. Ele disse que eram as esperanças cantando umas para as outras, à procura de um companheiro para acasalar. Ele foi-se movimentando até que o som ficou mais forte. Então ele sabia que estava perto do alvo. Eu não sei como ele fez, mas muito rapidamente encontrou a sua esperança, era enorme e estava sentada num ramo. Ele agarrou-a com uma tenaz especial e colocou-a num saco plástico transparente. Ele estava muito contente. "Esta é uma beleza!" , disse. Contou-me que iria levá-la de volta para o seu quarto e examiná-la e fotografá-la. Se fosse uma nova espécie, ele iria mantê-la e compartilhá-lo com os Museus de Harvard e de Maputo, capital de Moçambique. Se fosse algo que ele já conhecia, ele iria trazê-la de volta aqui e deixá-la ir. Eu pensei para mim mesmo: é interessante que as coisas que conheci toda a minha vida sejam descobertas tão importantes para estes cientistas famosos. Isso me fez perceber ainda mais o quão especial este lugar é e fez-me ainda sentir mais orgulhoso de estar ajudando a protegê-lo e a salvá-lo."