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Evitar o Conflito Homem-Elefante

Diário do Fiscal

“Quando o Director de Conservação me pediu para ir numa "missão elefante" pela primeira vez, devo admitir que fiquei assustado. Mas este é um trabalho importante dos fiscais e temos de executar a nossa missão. Quando chegámos à aldeia, era quase pôr do sol. As pessoas estavam todos reunidas sob uma árvore. Disseram-me que um elefante tinha sido visto perto das suas machambas na noite anterior. Um dos camponeses estava zangado, porque o elefante tinha comido parte do seu milho. Eles pareciam preocupados com a noite que estava a chegar. Se um elefante ou um grupo de elefantes decidisse visitar o seu bairro com certeza também estaria preocupado! Os elefantes são enormes. E embora eles sejam lindos e majestosos, eles também podem ser um perigo para as pessoas, para as suas culturas e para as suas casas. É um problema para as pessoas que vivem na "zona tampão", e não há uma solução simples. Na Gorongosa, fazemos todos os esforços para garantir que as pessoas e os elefantes vivam em paz e que ninguém fique prejudicado. Foi por isso que fui enviado para aqui hoje .

 

Sentei-me com as pessoas e disse-lhes que estava ali para as proteger. Expliquei que, por vezes, os elefantes machos, especialmente os jovens, saem do Parque e vão "explorar". Se eles encontrarem um campo cheio de maçarocas de milho ou outros vegetais, não conseguem resistir à tentação. Eu disse-lhes que os machos jovens gostam de comer o milho para que possam crescer mais rapidamente e conquistar as simpáticas senhoras elefantes! Todos riram, especialmente os jovens, porque eles entenderam o que eu quis dizer! Disse-lhes para não terem medo, para ficarem dentro de casa e para não enfrentarem o elefante - se um elefante se assustar, pode  assumir comportamentos defensivos. Disse-lhes ainda para deixar o problema para mim e para os fiscais, meus companheiros. Todos me agradeceram e foram para as suas casas, para comer o seu jantar e ir para a cama.

 

Havia uma lua cheia naquela noite e havia muita claridade. Esperei na machamba de milho em que o elefante tinha estado na noite anterior. Não havia nenhum ruído, excepto os sons do rio e dos insectos. Há uma sensação de incrível tranquilidade quando se está no mato. Não há luzes de vilas e cidades, não há barulho de carros e bares. Apenas silêncio. Estava tudo tão tranquilo que quase adormeci. Tive dificuldade em manter-me acordado! Levantava-me de vez em quando e dava uns passos. Então ouvi o som de algo grande a chapinhar no rio. Eu sabia que não era um hipopótamo porque os hipopótamos evitam os lugares onde as pessoas vivem. Tinha que ser um elefante que estava a atravessar o rio Pungué, deixando o parque e retornando ao "local do crime".

 

Fiquei com muito medo. Os elefantes são enormes e selvagens - um elefante poderia atirar-me para o ar como se eu fosse uma boneca de trapos. Mas, graças ao meu treino, eu sabia que, provavelmente, seria um macho jovem. E eles não são tão ousados como os machos adultos ou as fêmeas. Eu podia ouvir o som de passos pesados sobre a terra, o som do elefante a sugar o ar na sua tromba. Ele poderia estar a cheirar-me - os elefantes têm um incrível senso de olfacto. A Dra. Joyce Poole, a cientista dos elefantes, disse-me que o seu olfacto era melhor do que o de um cão de caça! Eu podia ouvi-lo bramir, um bramido baixo e profundo, como o ronronar de um gato gigante. Segurei a minha arma firmemente para maior conforto e esperei para ver o que ele faria.

 

Evidentemente, ele começou a comer o milho novamente - eu podia ouvi-lo a arrancar as maçarocas das plantas e a mastigá-las. Eu sabia que tinha que proteger as culturas deste homem, ou então ele e sua família viveriam tempos difíceis para encontrar o suficiente para comer e as pessoas poderiam querer vingar-se do elefante. Mesmo estando apavorado, caminhei na direcção do som e então eu vi-o: tão grande como uma casa, com a lua a brilhar sobre suas costas. O meu coração estava aceleradíssimo. Eu podia ouvi-lo a bater no meu peito. Eu comecei a falar baixinho, porque não queria assustá-lo demais. Um elefante assustado é um elefante perigoso. Eu só queria que ele soubesse que eu estava ali, e que queria que ele se fosse embora. Eu apenas disse: "Vai-te embora ... vai para o outro lado do rio. Não podes estar aqui." Muito rapidamente, ele virou-se e foi o mais rápido que podia para o rio e pude ouvir um chapinhar gigante quando ele se atirou à água. Eu engoli em seco e contei as minhas bênçãos. Sim, eu tinha uma arma e é claro que eu poderia tê-la usado para me proteger. Mas a arma deve ser usada apenas para os assustar – disparamos para o ar e eles ficam com medo do enorme barulho. Felizmente, esta noite, eu não tive nem mesmo de fazer isso. E as pessoas nas palhotas continuaram a dormir! "

 

O conflito entre os seres humanos e a fauna bravia não é um exclusivo da Gorongosa. Em toda a África, onde quer que eles co-existam, as necessidades das pessoas e as dos elefantes têm que ser mediadas. Se queremos que os elefantes sobrevivam em África, esta questão tem que ser resolvida onde quer que ocorra.

 

Os nossos corajosos fiscais desempenham um papel fundamental na protecção da vida das pessoas e dos elefantes nas comunidades da zona tampão em torno da Gorongosa. Mas estamos a procurar novas formas de garantir que os nossos fiscais não têm que colocar a sua vida em risco. A Dra. Joyce Poole e a sua equipa estão a trabalhar no sentido de identificar os lugares em que ocorrem conflitos entre seres humanos e elefantes em torno da Gorongosa e de fornecer aos moradores os conhecimentos e as ferramentas necessárias para evitar conflitos com os elefantes. Estamos a experimentar novas técnicas para manter os elefantes longe das machambas, através do uso de colmeias de abelhas e até mesmo usando vedações feitas com plantas de pimenta pipi-piri – os elefantes odeiam abelhas e piri-piri! Esta é uma questão importante e temos a intenção de fazer o nosso melhor para ajudar a resolvê-la e compartilhar o nosso conhecimento com outras pessoas em toda a África para tentar resolver este problema.