Uma Janela Para Eternidade

3 Abril, 2014

"O desenvolvimento destas instalações maravilhosas, juntamente com a inclusão anterior da Serra da Gorongosa no Parque e a reconstrução da mega fauna para números  que se aproximam aos do período pré-guerra, são realidades que se devem a Greg Carr e ao governo de Moçambique. Tudo isto significa um avanço não só deste país e de África, mas de todo o movimento ambiental global.

 

Essencialmente, o que se conseguiu é dar um papel mais amplo no movimento global,  aos parques naturais do mundo e às outras reservas de história natural. Este desenvolvimento vai ajudar a trazer a vida de volta à consciência ambiental da humanidade. Por que é que eu digo isto? O mundo está a tornar-se “verde”. A consciência ambiental tem crescido dramaticamente durante as últimas décadas . No entanto, o foco incide cada vez mais na parte não-viva do mundo, ou seja, nas mudanças climáticas, na poluição e no esgotamento de recursos insubstituíveis . Ao mesmo tempo, a atenção tem-se afastado para longe da parte viva da Terra, a chamada biosfera, uma camada de organismos vivos tão fina que não pode ser vista a partir do lado de um veículo espacial em órbita. A biosfera ainda tem muita biomassa, ou seja, o peso do tecido vivo. A maior parte é nas fazendas e florestas que sustentam a espécie humana. O que está em declínio é a biodiversidade, a variedade dos organismos vivos. A biodiversidade existe em três níveis: em primeiro lugar, os ecossistemas, como os lagos, os fluxos de água, as savanas e  as florestas secas do Vale do Rift e do Planalto de Cheringoma; em seguida, as espécies de plantas, animais e micro-organismos que compõem os ecossistemas; e, finalmente, os genes que prescrevem as características que distinguem as espécies que compõem os ecossistemas. Os Parques Nacionais, como a Gorongosa desempenham um papel importante na preservação da biodiversidade do mundo, e agora, cada vez mais, na aprendizagem de como salvá-los noutros lugares do mundo.

 

Quanta biodiversidade existe? Até à data, dois milhões de espécies de plantas, animais e micro-organismos foram descobertos, com as descrições e os nomes formais dados por biólogos. As estimativas, no entanto, colocam o número real perto dos dez milhões. Quando as bactérias e outros micróbios forem adicionados, o número subirá enormemente. A humanidade, para colocar a questão da forma mais simples possível, vive num planeta pouco conhecido. Falta-nos uma ideia precisa do que as nossas actividades estão a causar nele.

 

Isso leva-me a um outro ponto importante e pertinente para este Parque. A Gorongosa é até agora, creio eu, o único parque em África, e um dos poucos em todo o mundo, a realizar um estudo completo para descobrir e identificar todas as espécies de plantas, animais e micróbios que compõem sua biodiversidade e não apenas os mamíferos, aves, répteis, anfíbios, peixes e vegetação, mas todos os insectos, aranhas e outros invertebrados também. Este projecto, liderado por Piotr Naskrecki, e utilizando a experiência de Marc Stalmans, possibilitou já que aparecessem muitas espécies novas, principalmente de insectos. À medida que ele se expande, o número de espécies animais e vegetais irá aumentar de forma dramática. A título de comparação, considerem o Smoky Mountains National Park, nos Estados Unidos, onde um esforço semelhante, trouxe à luz cerca de 18.000 espécies.

 

Devemos aprender o máximo que pudermos sobre essas criaturas menores que eu gosto de chamar de "as pequenas coisas que governam o mundo”. Os elefantes, os leões e os outros mamíferos, obviamente desempenham um papel vital na ecologia da Gorongosa, mas eles vivem em cima de um plataforma viva de outros seres, plantas e animais, geralmente negligenciados. Eu acredito fortemente que devemos estender o termo "fauna bravia" para abranger todos os animais, grandes e pequenos, que compõem os ecossistemas.

 

Há tanta coisa a aprender para os cientistas e os naturalistas amadores no Parque Nacional da Gorongosa em termos de ecologia, fisiologia, e outros aspectos da biologia e do ambiente físico do parque também. Este é um local ideal para ser pioneiro do conceito de parques naturais em todo o mundo como centros de investigação e educação. O centro será um trunfo não apenas para os visitantes, mas cada vez mais ao longo do tempo, de grande valor para o povo de Moçambique. Tenho muito orgulho de ser uma parte deste processo, e felicito aqueles que criaram o centro e agora estão prontos para fazer dele um exemplo para o resto do mundo replicar.

 

Por E.O. Wilson

Quinta-feira 27 de Março de 2014

Inauguração do Laboratório de Biodiversidade Edward O. Wilson

 

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Notícias do Parque