Inaugurado Laboratório de Biodiversidade Edward O. Wilson

29 Março, 2014

O Professor Edward O. Wilson, aclamado pela National Geographic Society como "o maior naturalista de nosso tempo", emprestou o seu nome e a sua visão a um estabelecimento de alto nível concebido para investigação da biodiversidade no Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique. O conceituado biólogo evolucionista foi um dos convidados de honra na cerimónia de abertura do "Laboratório de Biodiversidade Edward O. Wilson”, na quinta-feira 27 de Março de 2014. O Laboratório é o primeiro de género a abrir em Moçambique. 

Alguns dos distintos convidados para a inauguração do Laboratório de Biodiversidade E. O. Wilson (fila de trás, da esq. para a dir.) Beca Jofrisse, Greg Carr, Douglas Griffiths, Professor E.O. Wilson, Abdala Mussa, Anibal Nhampossa, Paulo Majacunene, e na fila da frente Mateus Mutemba (Foto de Piotr Naskrecki)

 

O Parque Nacional da Gorongosa fica situado no extremo sul do Grande Vale do Rift no centro de Moçambique. A paisagem diversificada e a topografia desta área deu origem a uma biodiversidade imensa, incluindo espécies que não é possível encontrar noutros pontos da Terra. Fruto duma parceria entre o Governo de Moçambique e a Fundação “Gorongosa Restoration Project” dos EUA, o Parque Nacional da Gorongosa está em reabilitação há cerca de seis anos depois da destruição que sofreu como resultado do conflito armado de dezasseis anos que assolou Moçambique. A restauração em curso coloca hoje o Parque da Gorongosa no bom caminho para recuperar o seu estatuto de ícone. Desde o início do projecto, foram reabilitadas as suas infra-estruturas de gestão e turismo, e o número de animais de grande porte tem estado a aumentar, tendo algumas espécies registado uma recuperação de mais de 40%. Até agora, o Projecto de Restauração da Gorongosa revitalizou o trabalho anti-caça furtiva; reconstruiu as infra-estruturas do Parque; conduziu o monitoramento biológico; reintroduziu herbívoros em massa: zebras, bois-cavalos, búfalos, elefantes, hipopótamos; apoiou em infra-estruturas (escola, centros de saúde, residências para professores e enfermeiros); e construiu um centro de educação comunitária no interior do Parque.

A Serra da Gorongosa está situada no limite ocidental do Grande Vale do Rift e é parte integrante do Parque Nacional da Gorongosa (Foto de Piotr Naskrecki)

 

A investigação científica é uma parte integrante do esforço de restauração a longo prazo, porque uma profunda compreensão do ecossistema da Gorongosa vai ajudar os gestores do parque na tomada de decisões informadas sobre conservação. O novo laboratório de biodiversidade posiciona a Gorongosa para se tornar num ponto central de investigação científica na África Austral. O laboratório já atraiu a atenção regional, nacional e internacional. Cientistas de instituições Moçambicanas e internacionais, como as Universidades Eduardo Mondlane e Lúrio em Moçambique, a Universidade de Coimbra, em Portugal, e as Universidades de Harvard e Princeton, nos EUA, começaram já a realizar investigações no Parque.

A especialista de elefantes, Joyce Poole estuda o comportamento dos elefantes da Gorongosa enquanto o seu irmão Bob Poole, filma esse comportamento. 

 

O Laboratório irá coordenar uma ampla gama de projectos de investigação exploratória e projectos de restauração que vão desde o acompanhamento dos bandos de leões e manadas de elefantes, à medição da eficácia do esforço de reflorestação na Serra da Gorongosa. O Laboratório irá fornecer aos investigadores visitantes e residentes, bem como aos estudantes, ferramentas para processar, identificar e armazenar amostras biológicas, incluindo o armazenamento a longo prazo de tecidos e DNA; instalações para amplificação e extracção de DNA estarão também disponíveis no local. Um componente importante do laboratório é a colecção sinóptica de espécies animais e vegetais presentes no Parque da Gorongosa, desenvolvidas em colaboração com Museu Nacional de História Natural de Moçambique em Maputo. O Museu alojará na sua colecção nacional, a réplica de todos os espécimes que forem identificados no Parque da Gorongosa.

O técnico do laboratório, Flávio Artur Moniz, prepara-se para a chegada de espécimes biológicos. Os cientistas da Gorongosa tencionam identificar todas as espécies visíveis a olho nu. Trata-se de algo que até agora não foi conseguido por nenhum outro parque nacional em todo o mundo. (Foto de Piotr Naskrecki)

 

Um dos papéis mais importantes do Laboratório é providenciar formação à próxima geração de cientistas moçambicanos no Parque e também enviá-los para universidades de modo a tirarem diplomas avançados. "Esperamos poder ajudar a lançar as carreiras de uma geração de cientistas moçambicanos no laboratório de Biodiversidade E. O. Wilson", afirmou Mateus Mutemba. Alguns jovens (provenientes das comunidades vizinhas do Parque ou das escolas técnicas da região centro), que recebem assistência financeira total ou parcial do Laboratório, já começaram a estudar em universidades e escolas de nível médio para futuras carreiras como veterinários, ecologistas e técnicos de laboratório.

O estudante Moçambicano de fauna bravia e gestão de conservação, Tonga Torcida analisa uma coluna de formigas Matabele (Pachycondyla analis) que atravessa a estrada – trata-se de uma espécie que lhe atraiu particularmente atenção depois de ter obtido orientações do Professor E. O. Wilson (uma autoridade mundial no comportamento das formigas). (Foto de Piotr Naskrecki)

 

Em Junho de 2013, uma equipe de quinze especialistas moçambicanos e internacionais de renome completou o seu primeiro grande projecto, uma pesquisa abrangente sobre os animais e as plantas do Planalto de Cheringoma, no lado leste do Parque. A pesquisa registou mais de 1.200 espécies, incluindo várias espécies desconhecidas da ciência. Os cientistas irão em breve iniciar uma pesquisa similar na região praticamente inexplorada de Dingue-Dingue, com especial enfoque nas zonas húmidas e nos ecossistemas aquáticos. Estes levantamentos anuais de biodiversidade irão ser apoiados pelo novo laboratório e respectivas instalações de  arquivo e catalogação.

Alguns dos cientistas que participaram no Levantamento de Biodiversidade em Cheringosa 2013, apreciam o pôr do sol. Neste primeiro levantamento global da área, foram registadas mais de 1.200 espécies, incluindo algumas desconhecidas do ponto de vista científico. (Foto de Piotr Naskrecki)

 

Desde a sua primeira visita da Gorongosa, em 2011, o Professor Wilson desenvolveu uma atenção especial pelo Parque da Gorongosa, chamando-o: "... Ecologicamente o parque mais diversificado do mundo." Durante as primeiras duas visitas de Wilson à Gorongosa em 2011 e 2012, ele liderou expedições científicas para catalogar a biodiversidade do parque. Compreendendo a biodiversidade única do lugar, ele defendeu levantamentos contínuos para catalogar todas as espécies na Gorongosa. O novo laboratório da biodiversidade que é dedicado a Wilson será fundamental para catalogação e armazenamento das amostras obtidas nas investigações científicas anuais. Wilson também acaba de publicar um livro intitulado: "Uma Janela para a Eternidade: A Caminhada de um Biólogo pelo Parque Nacional da Gorongosa", a ser lançado em Abril, bem como dedicou vários módulos de aprendizagem de seu novo iBook, "Vida na Terra de E. O. Wilson” à Gorongosa.

 

"Os Parques Nacionais como a Gorongosa desempenham um papel importante na preservação da biodiversidade do mundo. Ao longo do tempo, a investigação deste laboratório irá ajudar a disseminar conhecimento acerca de como salvar a vida noutras partes do mundo", disse o Professor Wilson. 

O Professor E.O. Wilson examina atentamente uma teia de aranha-tecelã durante uma das suas actividades de recolha de insectos no Parque Nacional da Gorongosa (Foto de Bob Poole)

 

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