Arquitectura Sem Fronteiras

7 Março, 2014

Projectar para o mato requer um enfoque na sustentabilidade e aceitar as sugestões da própria natureza. Nesta edição das P&R o arquitecto Niel Crafford fala do seu contributo para dar vida ao Laboratório Edward O. Wilson.

Niel, a sua empresa trabalha principalmente nas áreas rurais, o que o atrai em trabalhar em lugares selvagens?

O homem não pode melhorar à custa da natureza ou competir com ela; o melhor que podemos almejar é aproveitar ao máximo o que a natureza tem para nos oferecer e limitar o dano que causamos. Projectar em lugares selvagens torna possível, até mesmo imperativo, pensar diferente. Como arquitecto e amante da natureza, este é um desafio difícil e capaz de manter alguém ocupado toda uma vida!

 

A maioria do seu trabalho coloca o enfoque no ecoturismo. Em que medida projectar para cientistas difere de projectar para turistas?

Qualquer edifício projectado por um arquitecto, seja uma casa ou um hotel, requer planeamento funcional. O tamanho dos quartos, a sua localização e relação entre si e com o espaço, a orientação, todas essas coisas. A inspiração criativa do aspecto que o edifício vai ter deve ser baseada em planeamento do som. Quanto à sua pergunta, a resposta resume-se provavelmente a um ser um ambiente de trabalho de alta tecnologia, enquanto o outro é uma fuga do local de trabalho habitual para a experiência mais natural possível que se pode oferecer aos visitantes.

 

Foto: Niël Crafford

 

Você é defensor de que deve colocar a ecologia como a mais alta prioridade na sua arquitectura. De que forma é que o projecto do Laboratório Edward O. Wilson interage com as características únicas do espaço?

Primeiro de tudo, a Gorongosa é um lugar quente. No verão, a temperatura raramente desce abaixo dos 20º Celsius durante a noite; durante o dia, as temperaturas muitas vezes sobem acima de 40ºC. Portanto, um dos maiores desafios foi manter os cientistas frescos o suficiente para realizarem a sua investigação .

Em climas quentes e húmidos como a Gorongosa, a única forma natural de refrescar é através do movimento do vento. Os edifícios foram concebidos para maximizar o fluxo de ar natural, utilizando a ventilação cruzada. Além disso, a ventilação solar empilhada (na qual as coberturas são projectadas de tal forma que agem como chaminés, auxiliando o ar quente que sobe a escapar do prédio) aspira o ar fresco da parte de baixo do edifício - uma estratégia não muito diferente da que usam as térmitas na construção de termiteiras.

A Gorongosa pode também ficar muito inundada. Então, optamos por elevar os andares de todos os prédios a aproximadamente 500 milímetros do solo, de modo a mitigar a possibilidade de as águas atingirem o local na época das chuvas .

 

Você tem a fama de imergir-se em princípios e métodos de construção indígenas. Terá este conhecimento influenciado o projecto do Laboratório EOW?

Normalmente, eu descubro a maneira como as populações locais constroem os seus edifícios e quais os materiais que usam. No caso concreto, esse tipo de construção não é de todo ideal, pois os laboratórios têm de estar livres de poeira e de insectos - condição que normalmente falha em coberturas de capim! O que mais influenciou a escolha do sistema de construção foi a velocidade da edificação - os materiais têm de ser trazidos para o local e montados antes da próxima estação chuvosa, o que consiste numa oportunidade limitada.

 

A sua paixão pelo design sustentável é reflectida em muitas das características ecológicas do Laboratório EOW, qual a que prefere e porquê?

O sistema de construção em si é altamente virado para a sustentabilidade, na medida em que pode ser removido do local, sem causar qualquer impacto e ser usado em outro local. No final do seu tempo de vida, a maioria dos materiais são reutilizáveis. O meu preferido é a pilha solar que foi projectada para ajudar o ar quente a escapar pelo ponto mais alto do edifício. Um vazio, sem qualquer isolamento, é criado acima das tábuas de palmeira do tecto, que em seguida aquece por causa do aumento do calor solar e "suga" o ar do edifício.

 

Os trabalhos das Fases II e III já estão em curso. O que podemos esperar de emocionante no futuro?

Antes de projectar qualquer detalhe, foi elaborado e aprovado um Plano Director de todo o Centro de Pesquisa da Biodiversidade. A primeira fase (Serviços Científicos e algumas unidades de alojamento) está quase concluída. As próximas fases incluem um Centro de Media, onde o trabalho feito por cientistas convidados pode ser filmado e apresentado aos interessados. Além disso, serão disponibilizados laboratórios para os investigadores, uma sala de recolha, uma biblioteca e salas de reuniões, bem como unidades de alojamento adicionais. Um complexo social, com um pequeno ginásio, cozinha comum e sala de jantar, e um espaço de relaxe interior/exterior com vista de  boma será também construído.

 

Há mais alguma coisa que gostaria de partilhar acerca do projecto do Laboratório EOW?

Para mim, a maneira única segundo a qual o Projecto de Restauração da Gorongosa visualizou o Centro é o que fará dele o primeiro no mundo: partilha a incrível riqueza da biodiversidade da Gorongosa com todos os que irão contribuir para tornar a Gorongosa numa área de conservação sustentável - a comunidade, os visitantes do Parque, os órgãos de Estado e o mundo em geral.

 

Niel Crafford é metade da multi-premiada e fraterna empresa de arquitectura Crafford & Crafford (http://www.ccarchitects.co.za). Ele é formado em Arquitectura pela Universidade de Pretória e tem estado envolvido activamente no desenvolvimento e planeamento de destinos turísticos por toda a África Austral, há mais de duas décadas.

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