As verdadeiras aves do paraíso

27 Março, 2013

Os exploradores Portugueses e Espanhóis que inicialmente visitaram a ilha da Nova Guiné, no século XVI ficaram espantados com as magníficas aves de cores brilhantes, cuja plumagem era usada pelos locais para adornar as suas cabeças e corpos. Os naturalistas europeus que examinaram as peles destas aves trazidas da Nova Guiné, repararam que nenhuma das amostras tinha pernas, e concluíram que as aves devem ter passado toda a sua vida a pairar acima do solo, tal como os anjos, e que nunca precisaram de andar ou tocar terra firme . Mesmo o Linnaeus não ficou totalmente imune a essas lendas, e denominou um das espécies Paradisaea Apoda, ou ave-do-paraíso sem patas. Que parvoíce! Certamente, não pode haver um animal que passe a sua vida inteira a voar sem tocar o chão. Ou será que pode?

 

Foto: Uma vez que um macho adulto efemeróptero toque a superfície da água irá morrer dentro de alguns minutos. (O halo semelhante ao de um anjo em torno da cabeça desse insecto é um reflexo do meu flash, e normalmente eu não o iria tolerar, mas, neste caso, pareceu-me apropriado.)

 

Ontem tivemos um dia bastante chuvoso no Chitengo, o que fez um monte de insectos muito felizes, incluindo nuvens de térmitas que saíram dos seus ninhos subterrâneos e voaram em busca de companhia para acasalar. Entre as muitas espécies de insectos que vinham ao encontro das luzes  por todo o acampamento haviam umas estranhas criaturas voadoras que, uma vez atingido o chão, nunca mais conseguiam levantar voo. Inicialmente pensei que esses insectos deveriam estar feridos, mas quando peguei num para o observar pude ver que o insecto, apesar de ter dois pares de grandes asas, não tinha pernas funcionais.

 

Foto: As pernas do efemeróptero (Polymitarcyidae) estão reduzidas a tocos inúteis e são completamente não funcionais. As patas dianteiras dos machos são um pouco maiores e podem ser usadas durante o acasalamento, que ocorre também no ar.

 

Esses estranhos animais revelaram-se ser efemerópteros da família Polymitarcyidae. As larvas desses insectos desenvolvem-se escavando a lama dos riachos e, depois de completar o seu desenvolvimento aquático, os adultos alados saem da água à procura de amor. Mas, uma vez no ar, eles nunca mais podem pousar. As patas, especialmente as dos machos, são completamente atrofiadas, e não podem ser usadas para andar ou mesmo para pousar. As poucas horas que os machos  duram como insectos adultos ocorram integralmente no ar – apenas atingem a terra, eles irão morrer.

 

A ave-do-paraíso sem patas da Nova Guiné revelou-se uma fraude, mas os animais que passam toda a sua vida adulta no ar são muito reais. Eles podem não ser tão coloridos como as aves, mas isso não os torna menos fascinante.

 

P.S. Quase duas semanas depois de perder a minha mala Pelican, com o meu equipamento de fotografia, quando voei para Joanesburgo, hoje voltei a “reunir-me” com a minha bagagem, o que me fez muito feliz.

 

Por Piotr Naskrecki

 

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Diários da Selva