Uma Tartaruga Rachada?

30 Abril, 2013

Por Piotr Naskrecki - Há alguns dias estava eu a conduzir na Gorongosa, quando reparei numa grande tartaruga no meio da picada, presa na lama, de cabeça para baixo. O animal estava vivo, mas tinha o que parecia ser uma grande ferida na parte de trás da sua carapaça rachada. Havia pegadas frescas de civeta ao redor dela na lama, e eu assumi que a civeta tinha encontrado uma tartaruga ferida (devo no entanto dizer que não pensei que a civeta fosse a causa do ferimento) e estava a tentar comê-la.

Foto: Uma tartaruga de Bell adulta (Kinixys belliana) da  Gorongosa. O que parece ser uma ferida da sua carapaça é uma pele que serve de dobradiça e que permite à carapaça fechar-se e proteger as patas traseiras e a cauda

 

Eu puxei o animal para fora da lama e só então reconheci o que eu estava a ver - a tartaruga não estava de todo ferida, e o que eu pensei que era um ferimento era somente um retalho de pele que ligava a parte da frente da carapaça com a sua parte móvel. Porque não era uma tartaruga comum, mas uma tartaruga de Bell (Kinixys), um membro de um grupo notável de répteis que são capazes de fechar completamente a parte de trás das suas carapaças para proteger as pernas traseiras e a cauda. Isto, combinado com uma cabeça bem destacada na frente da carapaça e protegida  pelas suas patas dianteiras fortemente armadas faz com que a tartaruga de Bell seja praticamente imune a ataques de pequenos predadores. A julgar pelos inúmeros  rastos de civeta à volta da tartaruga parecia que o mamífero tinha passado muito tempo frustrado, tentando sem sucesso chegar às partes moles do réptil.

 

Foto: Uma tartaruga de Bell juvenil; a dobradiça não está ainda totalmente desenvolvida

 

Embora a carapaça móvel seja uma óptima maneira de proteger a parte traseira do corpo, o retalho de pele que liga os dois componentes da carapaça é um local favorito para outro inimigo das tartarugas atacarem - as carraças. Todas as tartarugas que encontrei na Gorongosa tinham várias e enormes carraças (principalmente do género Amblyomma), cuja forma do corpo e estrutura é surpreendentemente semelhante ao da tartaruga. Transportar uma série de ectoparasitas sugadores de sangue não é brincadeira, mas a consequência de ser drenado por eles é provavelmente particularmente pesada em animais mais jovens e pequenos. Alguns dias atrás eu encontrei uma pequena tartaruga de Bell, uma em que a dobradiça não estava ainda totalmente desenvolvida, que trazia na sua pata uma das maiores carraças que eu já vi na minha vida. Era como se eu tivesse um parasita do tamanho de uma bola de futebol permanentemente agarrado ao meu corpo. Tirei a carraça da tartaruga, coloquei-a num frasco de álcool, e apliquei alguns anti-sépticos à tartaruga e deixei-a ir à sua alegre vida.

Foto: Uma carraça enorme (Amblyomma sp.) na pata da tartaruga

 

As tartarugas de Bell são bastante comuns na Gorongosa, e eu vejo-as frequentemente a atravessar a rede de picadas. Mas em toda a África os números estão a diminuir como resultado da perda de habitat e da sua captura para o comércio de animais domésticos. Todos os anos, cerca de 20.000 destes animais são exportados para serem vendidos em lojas de animais nos EUA e na Europa, e somente Moçambique envia cerca de 3.000 desses animais em cada ano (esta é a quota oficial permitida pela CITES, o número real é, sem dúvida superior). Felizmente, recentemente foi proibida nos EUA a importação da maioria das espécies de tartarugas de Bell. As carraças são a explicação. Alguns das carraças transportam uma doença, que, embora não seja prejudicial para os répteis, é muitas vezes fatal para o gado – a doença Heartwater, causada pela Rickettsia Ehrlichia ruminantium. E assim, o mesmo parasita que torna miserável a vida das tartarugas, pode, no final, ajudá-las a sobreviver na selva. Parece que nunca sabemos quem é o nosso verdadeiro aliado...

Photo: A carraça da tartaruga (Amblyomma sp.) também se parece com uma tartaruga, e a sua opisthosma é quase tão dura como a carapaça do réptil

 

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Categoria: 
Diários da Selva