Seguindo as pegadas de Tinley

30 Agosto, 2013

Por Tyler Coverdale - Costuma-se dizer que não se deve julgar um homem até que se tenha caminhado um quilómetro com os seus sapatos. Nestas duas últimas semanas eu passei quase todos os dias a seguir os passos de Kenneth Tinley, num percurso de quase 30 quilómetros. Eu cheguei ao outro lado enlameado e molhado, mas com imenso respeito pelo trabalho que ele fez e, talvez até mais importante, com o que isso significa para o futuro da Gorongosa.

 

Foto: A planície aluvial do Vale do Rift-Urema com a Serra da Gorongosa e os “Inselbergs” Bunga como pano de fundo. Uma manada de 2.000 búfalos com um bando de garças em primeiro plano (por Kenneth Tinley, 1977)

 

À semelhança de Tinley, eu estou a trabalhar no Parque Nacional da Gorongosa, como parte de minha tese de doutoramento, a qual começou com um esforço de colaboração com outros membros do “Princeton University’s Pringle Lab” para entender como é que o Parque mudou desde o trabalho fundamental de Tinley na década de 1960. Numa pequena parte de sua tese, Tinley documentou a comunidade vegetal da planície aluvial do Urema – que espécies estavam presentes, em que proporções, e quais eram pastadas pelos inúmeros herbívoros do Parque. Há quatro décadas, ele descobriu que a planície de inundação era dominada por gramíneas que forneciam alimento para milhares de búfalos, bois-cavalos (gnus) e zebras. Ao migrar através da planície de inundação e alimentando-se constantemente, estes animais mantiveram a planície cortada de forma uniforme e impediram a invasão por espécies lenhosas e não-gramíneas intragáveis.

 

Foto: A planície aluvial do Urema nos dias de hoje. Ao replicar os métodos de Tinley de forma tão precisa quanto possível, esperamos poder determinar como é que a vegetação mudou e o que é que essa mudança significa para os objectivos de restauração do Parque. (por Tyler Coverdale)

 

Hoje, quase 95% desses animais desapareceram, perdidos durante o conflito civil que moldou o passado e o presente do Parque. Sem as milhares de bocas para manter as não-gramíneas intragáveis afastadas, será que a planície de inundação ainda tem a mesma aparência? Para descobrir a resposta, nós usámos mapas feitos à mão por Tinley para localizar os mesmos locais que ele investigou. Em seguida, replicámos os seus métodos - estabelecendo linhas de transeptos e identificando espécies em parcelas igualmente espaçadas da borda da floresta até às margens do lago. Ao longo do caminho nós deparámos com muitas das mesmas espécies encontradas por Tinley, mas também encontrámos espécies nativas e não-nativas que não estavam por perto quando Tinley andou nestes transeptos. Há ainda trechos de capim, agora pastados por inhacosos e javalis, mas grande parte da planície de inundação foi colonizada por densas não-gramíneas intragáveis. Se este lugar ainda poderá suportar o número e variedade de herbívoros que tinha anteriormente permanece uma questão em aberto, mas à qual esperamos responder nos próximos anos.

 

Foto: Duas parcelas do nosso trabalho de investigação na planície aluvial. (esq.) Uma área de capim comida pelos inhacosos, semelhante às que Tinley deverá ter visto ao longo da planície aluvial. (dir.) Uma área densa de não-gramíneas intragáveis pouco pastadas. (por Tyler Coverdale)

 

A planície de inundação do Urema sempre foi um sistema dinâmico, limpo a cada ano pelas cheias  para crescer de novo quando as águas baixam. É um habitat que é fundamental para o futuro do Parque e dos animais que todos nós esperamos um dia ver por ali a circular livremente, tal como Tinley viu há 40 anos atrás. A importância de seu trabalho agora é mais claro do que nunca - apenas através da compreensão de como é que o Parque mudou é que podemos esperar conduzi-lo em direcção ao futuro que todos nós esperamos.

 

Foto: Membros do “Pringle Lab” Tyler Coverdale (esq.) e Tyler Kartzinel investigam um das  mais de 500 parcelas originalmente investigadas por Tinley há mais de 40 anos atrás. (by Josh Daskin)

 

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Diários da Selva