A Savana é uma Igreja Infinita

2 Janeiro, 2013

Por Mia Couto

Será que realmente nos lembramos do que experimentamos? Ou somos incorrigíveis falsificadores do passado, fabricando memórias, sempre que as revivemos? Quanto a mim, ninguém pode dizer que as minhas memórias de uma manhã fria em Julho não são verdadeiras. Eu tenho 12 anos e estou no Parque Nacional da Gorongosa. Os meus pais ainda dormem, mas eu já saí do bungalow para dar uma espiada no que deve estar a observar-me. Durante a noite, eu ouvi o rugido dos leões, o riso falso das hienas e o uivo triste dos chacais. Os meus pais nunca vão acreditar quando eu lhes disser. Por isso, preciso de provas de outras presenças, bestas para as quais possa apontar, na confusão do meu peito ofegante, e sussurrar: "Estão ali, consegues ver?"

 

Não me desvio do bungalow. É uma sensação estranha, querer ver, mas com medo de ser visto. A erva está coberta de orvalho; é como se o céu tivesse descido à terra durante a noite. São cinco horas da manhã e eu nunca senti a manhã tão intensamente. Tudo ao redor, dúzias de aves diferentes, cantam. De repente, os babuínos fazem ressoar o alarme e eu corro para o quarto onde o meu irmão ainda dorme. Até hoje, lembro-me desse arrepio de quando encontrei um mundo estranho. Um sentimento do absoluto que me invade, como se a savana fosse uma igreja infinita e eu fosse um dos fiéis de uma crença desconhecida.

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Diários da Selva