Que grande barulheira!

23 Março, 2013

Estou de volta da primeira viagem de reconhecimento ao Planalto de Cheringoma na zona oriental da Gorongosa. Foi uma viagem lenta e em quase todos os lugares fomos forçados a desimpedir a estrada, removendo ou encontrando uma passagem à volta de árvores caídas, mas a recompensa valeu a pena. A zona oriental do Parque é uma das áreas mais bonitas onde eu já estive, cheia de gargantas profundas e desfiladeiros, quedas de água, e florestas de grande beleza. Durante esta viagem não tive muito tempo para procurar insectos, praticamente não os vi, mas uma espécie foi muito difícil não dar por ela.

 

Passámos a última noite do reconhecimento num acampamento de fiscais bastante isolado, um lugar que está instalado por cima de profundos solos arenosos. E este tipo de solo é precisamente o que os grilos do tabaco (Brachytrupes membranaceus) gostam, e mostram-no de forma nítida e audível. Por volta das 7:30 pm, assim que ficou realmente escuro, por todo o acampamento irrompeu uma inacreditável cacofonia quando cerca de um dúzia de grilos machos começarem a cantar à entrada dos seus buracos. Eles eram fáceis de localizar, mas a aproximação a qualquer um deles era dolorosa. Ouvir um grilo do tabaco a cantar a uma distância de menos de um metro é como olhar para uma luz brilhante – durante uns instantes, assim que fecharmos os olhos, iremos continuar a ver a luz e pouco mais, da mesma forma a cantiga do grilo deixa marcas na nossa audição e impede-nos de ouvir quaisquer outros sons durante alguns segundos.

 

Foto: os machos cantores estão sempre voltados para o seu buraco e mergulham nele ao mais pequeno sinal de distúrbio. 

 

Isto não é surpreendente, se considerarmos que esta espécie é do tamanho de um pequeno rato. Os grilos do tabaco são gigantes, reconhecidamente os maiores espécimes de grilos do mundo (mas há várias espécies na Ásia, que também são igualmente enormes). Aparentemente são também os mais ruidosos. Eu gravei um dos machos e podem ouvi-lo aqui: para obter uma aproximação o mais aproximada possível do som real, coloque o volume do seu computador no máximo e aproxime o seu ouvido do altifalante.

 

Os grilos do tabaco devem o seu nome à sua preferência pela planta do tabaco, e em algumas zonas de África são vistos como uma peste. Ao contrário de muitos outros grilos e ortópteros, estes insectos recolhem e armazenam comida nos seus buracos, e são capazes de preservá-la de forma a que o bolor não a estrague. Eles desviam-se da normalidade e têm  cuidados maternais bem desenvolvidos. A fêmea que tem ovipositor muito reduzido, põe os ovos no seu buraco e cuida deles e das recém-nascidas ninfas até que estejam em condições de se alimentarem por si próprias. São de facto criaturas fascinantes, e que também me ensinaram a procurar primeiro os grande buracos no solo antes de montar a tenda e a afastar-me deles o mais possível.

 

Por Piotr Naskrecki

 

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Categoria: 
Diários da Selva