Os Pigmeus da Serra da Gorongosa

10 Dezembro, 2012

“Não deveria estar ali à noite,” disse o Tonga, “não é aconselhável.”

Como, fazer coisas que não são aconselháveis, é o que eu gosto de fazer, tomei a devida nota da objecção do meu assistente, acenei-lhe adeus, e comecei a caminhar em direcção ao cume da Serra da Gorongosa. Eu estava em Moçambique, como membro de um grupo de biólogos que trabalhavam numa investigação sobre o Parque Nacional da Gorongosa. A serra tinha-se tornado recentemente parte integrante do Parque, e as suas misteriosas e desconhecidas esperanças (“katydids”) atraíam-me desde que eu tinha chegado ao país, algumas semanas atrás.

Mas as esperanças, animais que primam pelo secretismo, não são fáceis de encontrar, e a única maneira de as obter é perseguir calmamente os seus cantos à noite. Esta actividade faz-se melhor sem companhia, daí a minha decisão de passar alguns dias na serra, sozinho.

 

Assim que cheguei à floresta que envolve a serra abaixo do cume, instalei a minha tenda e saí para ver o que havia lá fora. Nesta altura já estava escuro e os insectos estavam a começar a cantar. Inspeccionei a vegetação com a minha lanterna de cabeça e imediatamente notei uma pequena criatura abraçando um ramo, um animal cuja forma parecia um tanto inesperada, mas ao mesmo tempo estranhamente familiar. O meu cérebro precisou de um segundo para reunir tópicos díspares de conhecimento superficial, e então... os Céus Sejam Louvados, era o Camaleão Pigmeu da Gorongosa!

Eu tinha lido sobre este lagarto quase mítico, descoberto apenas em 1971 e desde então visto por apenas um punhado de pessoas, e nunca esperava ter tido a sorte de lhe pôr a vista em cima em cima durante os primeiros minutos da minha pesquisa. O Camaleão Pigmeu da Gorongosa (Rhampholeon gorongosae) é um membro de um grupo (Brookesiinae) que se espalhou extensivamente em Madagáscar, mas tem apenas alguns membros em África. Ao contrário dos camaleões "não-pigmeus" (Chamaeleoninae), que vivem no alto de árvores e arbustos, os camaleões pigmeus passam a maior parte de sua vida entre as folhas no chão, e sobem aos ramos somente à noite para evitar serem comidos por musaranhos e outros predadores nocturnos. E uma vez que poucos predadores nocturnos estão equipados com boa visão de cores, à noite eles diminuem os cromatócitos produtores de cor da sua pele, e tornam-se de uma palidez fantasmagórica. Isto, obviamente, torna-os fáceis de detectar por alguém que tenha uma boa lanterna, e logo comecei a notar dezenas deles, dormindo em árvores e arbustos ao redor de mim. Um estava sentado a cerca de três metros da minha tenda, e eu decidi levantar-me cedo para ver a sua descida e o início de sua rotina diária. Eu estava à espera de poder fotografá-lo durante todo o dia à medida que como ele fosse caçando insectos no amontoado de folhas no solo. No entanto, embora eu me tenha levantado um pouco antes do amanhecer, o camaleão já se tinha ido embora. Passei o dia inteiro à procura destes lagartos, e não encontrei nenhum, mas um pouco antes do pôr-do-sol o camaleão estava de volta ao seu poleiro, exactamente no mesmo local do dia anterior.

Na manhã seguinte, levantei-me ainda mais cedo, mesmo a tempo de ver o meu camaleão movimentar-se lentamente em direcção ao chão da floresta. Era uma fêmea, e eu passei várias horas monitorizando cada movimento dela, observando e fotografando-a enquanto ela se alimentava de térmites e de outros pequenos insectos. De vez em quando eu atirava um pequeno gafanhoto na sua direcção, e quase sempre ela pegava-o com a sua língua incrivelmente longa. A um dado momento tirei os  meus olhos dela por alguns minutos, e ela desapareceu.

 

Passar despercebido é a única defesa destes animais, mas eles conseguiram transformar esse comportamento numa forma de arte. Não só eles se assemelham a um pedaço de madeira, mas, como todos os camaleões, eles são incrivelmente bons em mudar a cor e padrão dos seus corpos, para que coincidam com o substrato sobre o qual estejam ou caminhem. Embora a maior parte do tempo os camaleões da Gorongosa exibam vários tons de castanho para combinar com folhas mortas no chão da floresta, caso estejam a escalar uma videira ou uma outra planta viva, eles ficam verdes. É bastante divertido vê-los subir coisas, o que fazem de forma hábil, embora muito lentamente, apesar da falta de uma cauda preênsil que existe nos seus primos maiores.

Camaleão da Folha Castanha (Brookesia superciliaris) de Madagáscar, embora Camaleão “Yoda” talvez fosse o nome mais adequado para esta espécie. 

 

O meu encontro na Serra da Gorongosa não foi o meu primeiro com os camaleões pigmeus. Quase uma década antes, eu passei algum tempo em Madagáscar, e lá eu vi várias espécies do género Brookesia. Eles eram semelhantes em formas e tamanhos com os camaleões da Gorongosa, e também não tinham a cauda preênsil, mas estas características eram o resultado de uma evolução convergente, em vez de reflectir um verdadeiro parentesco entre as espécies africanas e malgaxe. Eles também apresentaram um comportamento bastante inesperado que eu não vi na espécie africana. Tal como os seus primos da Serra da Gorongosa, brookesias caem no chão e permanecem imóveis até que o perigo passe. Mas se isso não acontecer, como quando eu peguei um dos lagartos com a minha mão, de repente, eles transformam-se numa abelha muito zangada e com um alto zumbido! Ou pelo menos é o que o meu sistema nervoso simpático me disse, forçando a minha mão a soltar o animal assim que o toquei, apesar de o meu cérebro saber que era um truque, e que eu ainda estava segurando um pequeno e inofensivo lagarto. Este comportamento defensivo zumbidor tem sido visto em algumas espécies de camaleões, mas o seu mecanismo é ainda mal compreendido.

O Camaleão Pigmeu da Serra da Gorongosa pode ser menor que o dedo mindinho, mas é um símbolo magnífico do ecossistema único da Serra da Gorongosa, e não é só ele. Durante as poucas noites que passei na montanha, nos momentos em que eu não estava rindo de alegria ao ver o lagarto mais adorável do planeta, encontrei várias espécies de esperanças, até então desconhecidas para a ciência. É bastante provável que, tal como o camaleão, sejam endémicas da Gorongosa, e eu devo absolutamente voltar ali para aprender mais sobre elas. Mesmo que isso não seja aconselhável.

 

Por Piotr Naskrecki

 

Ler mais no blog do Piotr: The Smaller Majority

 

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Diários da Selva