Os Arquitectos do Lago Urema

19 Junho, 2013

Por Jen Guyton - É difícil imaginar um hipopótamo a passar despercebido. Estes volumes de três toneladas, cheios de músculos, com uma brilhante pele cor de cinza, que grunhem, roncam e  sopram não são fáceis de esconder, pelo menos não por muito tempo. Mas não estávamos a conseguir encontrá-los. Aqui na Gorongosa, estes pesadões tanques com dentes são tímidos e nervosos. À semelhança do que aconteceu com os elefantes da Gorongosa, os hipopótamos foram perseguidos, e forçados durante a longa guerra civil de Moçambique a dominar a arte da camuflagem. Enquanto nós deslizávamos por cima do Lago Urema num helicóptero de cor azul brilhante, apenas suaves ondulações apercebidas através do canto dos meus olhos insinuavam a presença de hipopótamos. No momento em que eu me voltava para prestar atenção, já não estava lá nada, apenas o brilho branco do sol.

 

 

Estou aqui para aprender mais sobre as zonas húmidas do Parque, os rios que o percorrem e seu núcleo pulsante: o Lago Urema. E os hipopótamos são os arquitectos do lago - ou, pelo menos, eram, antes dos seus números terem caído de 3.500 para apenas 100 num quarto de século de caça ilegal durante e depois da guerra. Agora, a população de hipopótamos está a recuperar. Nos últimos vinte anos, desde que a guerra terminou, o número mais do que duplicou, e existem agora cerca de 250 hipopótamos boiando nas águas do Urema e dos seus afluentes.

 

 

No Delta do Okavango, no Botswana, os hipopótamos abrem canais profundos, empurrando areia para os lados, à medida que se movem para ir pastar e depois regressar, durante a noite. Esses canais redireccionam a água, criam o habitat para os animais aquáticos, e aumentam a heterogeneidade da paisagem. A partir de um helicóptero, esses canais são evidentes no lago Urema também. Os hipopótamos devem ter desempenhado um grande papel na formação do lago e da respectiva planície de inundação; agora, a população é muito pequena e demasiado móvel para ter um grande impacto. Apesar de serem biologicamente adaptados para estarem à superfície da água, os hipopótamos não são grandes nadadores – as suas peregrinações aquáticas dependem de uma dança em bicos dos pés ao longo do leito do lago. E assim, eles seguem as águas rasas e as boas pastagens, e com esta baixa densidade, eles não são ameaçados pelos grupos territoriais vizinhos. É extremamente importante saber o que está a acontecer no lago agora que há tão poucos.

 

Mas os hipopótamos nunca são sujeitos de estudo fáceis. Eles são o pesadelo de um ecologista: aquáticos, nocturnos, perigosos, com mandíbulas que podem cortar um pequeno barco ao meio. Sem mencionar o fato de que eles competem com os crocodilos, que recentemente substituíram os hipopótamos na lista dos animais mais perigosos de África.

 

 

Para finalmente ver os hipopótamos da Gorongosa, tivemos que trocar o helicóptero por uma lancha. Nós deslizámos ao longo do rio Sungué, passámos por lagartos varanos do tamanho de pequenos crocodilos e crocodilos do tamanho de pequenos carros. Ocasionalmente, vislumbrávamos uma figura acastanhada corcunda e  sedentária, à distância, onde o lago brilhava perfeitamente incorporado no céu branco. Finalmente vimos algumas figuras castanho acinzentadas descansando na margem, inconfundíveis, especialmente quando um deles se levantou para olhar para nós.

 

“Ali estão os hipopótamos. Uma série deles,” observou o Bob Poole, o nosso guru de media, residente.

“Consigo ver cerca de dez.” Respondi.

“Não sei… talvez vinte.” Disse ele, passando-me os seus binóculos.

 

Nós silenciámos o motor e aproximámo-nos, e enquanto os hipopótamos despertavam da sua soneca e se atiravam à água, fomos contando. Quarenta. Quarenta hipopótamos. Isto era quase 20% de toda a população do Parque num só grupo, a 100 metros do nosso barco. Eles agitaram a água estagnada do lago e olharam para nós com olhos como seixos do rio. Dois dos maiores machos sopraram na nossa direcção e desapareceram, dobrando suas orelhas para trás e afundando-se em silêncio. Nós ligámos o motor e saímos dali para fora.

 

 

Por agora eu tenho que sair deste lugar, reunir meus pensamentos, comprimir e repensar o meu entendimento ainda recente deste calmo e complexo ecossistema. O que sabemos agora sobre a planície de inundação e os seus habitantes, mesmo os grandes, é apenas a ponta do iceberg – uma expressão análoga à Sul-Africana "as orelhas do hipopótamo". Cientificamente falando, em comparação com outros animais carismática da mega fauna, o hipopótamo é um ponto branco no mapa. No que respeita aos hipopótamos, apenas ainda vimos as suas orelhas.

 

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Diários da Selva