O meio leitão de mármore

25 Março, 2013

Caminhando dentro do Acampamento de Chitengo, na Gorongosa, especialmente depois da chuva, quando a terra está mole, muitas vezes deparei com dois tipos de bonitas criaturas, parecidas com porcos. Os facoceros são os mais visíveis, escavando à procura de raízes e larvas, sem nenhum medo da frenética actividade dos preparativos para a abertura da temporada turística. Mas se eu olhar atentamente para o chão, debaixo dos meus pés, muitas vezes eu vejo o que parece ser um outro tipo de pequeno e gordo leitãozinho. São as rãs de Nariz-em-forma-de-pá (Hemisus marmoratus), uma espécie de anfíbios subterrâneos que são muito hábeis em escavar o solo. Um olhar mais atento revela a raiz do seu nome científico ("hemi-" significa "meia" em grego e "sus" é "um porco", em latim) – o seu corpo gorducho termina num focinho afiado e, ao contrário de outros rãs escavadoras que cavam primeiro com as suas patas traseiras, estas mergulham de cabeça, usando o focinho como uma cunha e as suas pernas curtas para empurrar o corpo para o subsolo. Elas não são grandes saltadoras e preferem correr se assustadas, e logo que encontram um solo adequado começam a empurrar o corpo barrigudo para a terra. Se o solo é mole elas desaparecem completamente em questão de segundos.

Foto: Embora oficialmente conhecido como a rã de Nariz-em-forma-de-pá (Hemisus marmoratus), acho que irá concordar que uma tradução directa do seu nome científico, “o meio leitão de mármore”, é mais apropriada.

 

Muitas vezes, porém, o terreno é muito difícil de escavar, e a única opção que têm é manter-se firmes. Embora já bastante corpulentas, engolem ar e incham o corpo, transformando-o num pequeno balão, e tornando-o difícil de engolir por uma cobra ou por outro predador.

Foto: O modo de fuga preferido pela rã de Nariz-em-forma-de-pá é de desaparecer por debaixo da terra. O seu focinho pontiagudo e as poderosas patas traseiras permitem-lhe escavar e desaparecer em poucos segundos.

 

As rãs de Nariz-em-forma-de-pá alimentam-se principalmente de térmitas e de formigas, o que explica a sua boca excepcionalmente pequena, mas ainda não sabemos se são capazes de se alimentar no subsolo ou apenas à superfície. A sua biologia reprodutiva é bastante interessante - ao invés de colocar os ovos directamente na água, a fêmea coloca-os numa toca algumas semanas antes do início das chuvas, e espera que a estação chuvosa chegue. Durante este tempo, ela defende os ovos e os girinos recém-nascidos contra as formigas e outros predadores. Se as condições o permitirem, ela então cava um canal de ligação a um charco, onde os girinos completam o seu desenvolvimento, ou então carrega-os até lá nas suas costas. Esta estratégia dá aos girinos uma vantagem sobre outras espécies, porque eles entram na água e começam a alimentar-se antes dos ovos das outras rãs terem a possibilidade de eclodir.

Foto: Se não conseguir escavar, a rã de Nariz-em-forma-de-pá incha o seu corpo, tornando difícil que seja engolida.

 

Por Piotr Naskrecki

 

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Diários da Selva