O Gafanhoto Falante

23 Abril, 2013

Uma das características mais cativantes de gafanhotos é a sua capacidade de produzir som. Entre as memórias mais maravilhosas da minha infância estão incluídas estar sentado num prado repleto de sons de insectos e observar os gafanhotos usarem as suas pernas traseiras para produzir canções ritmadas e suaves, sem perceber na altura na semente que estava a brotar no meu cérebro e que acabaria por florescer numa carreira inteiramente dedicada à entomologia.

Foto: Um macho Cataloipus cognatus a mastigar erva.

 

Apesar do equívoco estranhamente persistente, o som de gafanhotos não é produzido por esfregar as suas patas (na verdade, nenhum insecto produz sons desta forma), mas sim, arrastando o lado interno do fémur posterior contra uma veia grossa sobre a asa dianteira (dependendo do grupo, seja o fémur ou a veia estão armado com uma fileira de estacas estridulatórias). Mas esta capacidade de produzir sons altos é muito menos comum entre os gafanhotos do que pode parecer a alguém que cresceu na Europa, um dos poucos lugares no mundo onde os membros da subfamília vociferante Gomphocerinae dominam a fauna dos gafanhotos. Fiquei surpreendido ao ver quão poucos gafanhotos cantam nos prados Norte-americanos ou Australianos, e que os gafanhotos tropicais da América do Sul e de África são quase todos silenciosos.

 

Eu estava, portanto, bastante surpreendido quando apanhei ontem na Gorongosa um belo gafanhoto Cataloipus cognatus, e o insecto respondeu a esta violação da sua liberdade, produzindo ruídos altos e persistentes. Levei algum tempo para descobrir como o som era produzido. No início pensei que ele estava a usar as patas traseiras para fazer o som, mas esta linhagem de gafanhotos (Eyprepocnemidinae) carece de estacas estridulatórias nas suas patas e, além disso, eu estava a segurá-lo pelas patas e, portanto, ele não poderia usá-las mesmo que quisesse. Olhando de perto, percebi que o som do gafanhoto estava a vir da sua boca. Eu sabia de uma espécie das esperanças que é capaz de estridular com as suas mandíbulas, mas não fazia ideia que alguns gafanhotos também o pudessem fazer..

 

Foto: As fêmeas de C. cognatus são muito maiores do que os machos; elas são também completamente silenciosas, enquanto que os machos produzem uma estridulação mandibular alta.

 

Só para ter certeza, apanhei mais alguns exemplares, e alguns fizeram o som, enquanto outros não. Então notei que os silenciosos eram todos do sexo feminino, enquanto que todos os machos estavam a produzir o som. Como eu não tenho ainda um microscópio aqui no acampamento de Chitengo (está a chegar um, dedos cruzados!), eu ainda não consegui olhar para a estrutura do aparelho que produz som. Mas gravei o som e analisei o seu oscilograma, o qual revelou um padrão claro, uniformemente espaçado de impulsos, o que é indicativo da presença de um arquivo estridulatório distinto. Isto, combinado com o facto de que apenas os machos produzem som, parece sugerir que o som pode ser usado não apenas como um sinal defensivo, mas sim que ele pode desempenhar um papel no cortejo das fêmeas. Se isto é verdade, e eu vou tentar confirmá-lo, observando o comportamento de namoro desta espécie, isto será um caso muito interessante de evolução independente de estridulação amorosa nos gafanhotos “eyprepocnemidine”.

Foto: Um oscilograma da estridulação mandibular do C. Cognatus; clicar aqui para ouvir o som.

 

Por Piotr Naskrecki

 

Leia mais no blog The Smaller Majority

 

Categoria: 
Diários da Selva