A matéria dos sonhos

24 Março, 2013

Não é fascinante que a mesma coisa possa ser objecto dos piores pesadelos de uma pessoa, e dos mais loucos sonhos e desejos de outra? Nada ilustra melhor este ponto do que a aranha tecelã de teia dourada (Nephila), que a minha mulher nem mesmo chama de aranha - são simplesmente o seu Némesis, claramente com a intenção de a atrair para a sua enorme teia e de se enredar no seu cabelo.

Foto: Aranha tecelã de teia dourada 

 

Mas eu hoje tive o prazer de ir para o campo com dois grandes aracnólogos, Matjaž Kuntner e Ingi Agnarsson, que vieram a Moçambique com um sonho e um único sonho - ver e apanhar a maior aranha tecelã de teia dourada do mundo, Nephila komaci. Esta espécie foi descoberta por Matjaž há alguns anos atrás entre os antigos espécimes de um museu, mas ninguém viu uma viva desde então. Mas há uma reviravolta interessante nessa história - a razão pela qual Matjaž e Ingi escolheram a Gorongosa para procurar este Santo Graal da aracnologia foi uma pequena foto, uma verdadeira miniatura, da N. komacithat que apareceu no antigo site da Gorongosa há cinco anos, dois anos antes da espécie ter sido oficialmente descrita. Nós não sabemos exactamente onde a foto foi tirada, mas tinha que estar algures  no parque.

 

Partimos de manhã cedo para procurar a enigmática aranha tecelã, na esperança de a poder encontrar nas manchas de floresta de areia na parte sul do Parque. Infelizmente, após várias horas a vaguear pelo mato voltámos de mãos vazias, não em pequena parte por causa de alguma confusão sobre o local onde as manchas  florestais ficavam, o que nos fez acabar por nos afastar alguns quilómetros do nosso destino. Mas fazer de isca para os leões durante várias horas, esta manhã, não foi uma perda total, também. Os especialistas de aranhas encontraram algumas espécies interessantes, incluindo uma espécie relacionada, a aranha tecelã de teia dourada de bandas nas patas (Nephila senegalensis). Estes são animais lindos, enormes e de belas cores. As suas teias são muitas vezes feitas de uma brilhante seda amarela e daí o nome comum. Alguns anos atrás Simon Peers e Nicholas Godleyu usaram a seda de uma espécie aparentada de Madagáscar para tecer uma extraordinária capa dourada.

 

Amanhã o Matjaž e a Ingi vão continuar a sua busca, desta vez com um GPS e um desejo ainda mais forte de colocar as suas mãos em cima do seu sonhado aracnídeo.

 

Por Piotr Naskrecki

 

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Diários da Selva