Manticora

26 Abril, 2013

Tenho estado muito ocupado aqui no Chitengo, e estou com dificuldade para  encontrar tempo para actualizar o blog no meio dos preparativos para nosso próximo levantamento da biodiversidade no Planalto de Cheringoma. Mas simplesmente não consigo resistir a mencionar uma das criaturas mais extraordinárias que tive o prazer de conhecer em Gorongosa. Todo o biólogo tem uma lista de organismos que está particularmente interessada em ver pelo menos uma vez na vida selvagem. A minha lista é longa, mas há alguns dias eu consegui assinalar nela a Manticora, ou Besouro Tigre Monstro.

Foto: O Besouro Tigre Monstro (Manticora latipennis) matando uma das suas presas favoritas, um gafanhoto (Humbe tenuicornis) 

 

Com um nome como este seria de esperar um besouro bastante extraordinário, e de facto não fiquei decepcionado. Este besouro deve o seu nome a uma besta mítica com o corpo de um leão, a cabeça de um homem, e a cauda de um escorpião, e a Manticora da vida real pode não ser tão monstruosa, mas não deixa de ser um animal impressionante. É o maior besouro-tigre do mundo (Cicindelinae), com um corpo robusto, fortemente esclerosado que facilmente atinge 65 mm de comprimento. A sua cabeça, especialmente a do macho, é equipada com um par de mandíbulas que não pareceriam fora de lugar numa carocha, mas, ao contrário da função principalmente ritualística das grandes mandíbulas nas carochas, as da Manticora são extremamente  funcionais.

Foto: As mandíbulas da Manticora latipennis são verdadeiramente  impressionantes. Para além de apanharem e matarem as suas presas, os machos usam-nas também para segurarem e prenderem a fêmea durante a cópula. 

 

Apesar de seu tamanho a Manticora comporta-se de uma maneira bastante semelhante a espécies de besouros-tigre mais pequenas. Os seus movimentos são ágeis, e pode correr muito rapidamente  e mudar de direcção numa fracção de segundo; não pode, no entanto, voar. Estes besouros caçam qualquer coisa que se mova, apesar de preferirem ortópteros, mas ao contrário de outros besouros-tigre parece que o sentido do olfacto, mais do que a visão, é a sua principal ferramenta para localizar suas vítimas. Uma vez que a presa está localizado o besouro aperta-a com suas enormes mandíbulas e literalmente irá desfazê-la em pedaços.

 

Eu assisti um a encontrar e a matar uma  grande aranha-lobo - no começo eu pensei que a aranha iria dar luta, mas cerca de dois segundos mais tarde, o que restava da aranha era uma bola muito bem mastigada de tecido e uma pequena pilha de patas. Depois que o corpo principal foi consumido o besouro pegou as patas, uma por uma, do chão e comeu-as, também. Curiosamente, o besouro, que era um macho e portanto com mandíbulas particularmente grandes, usou os maxilares, em vez das mandíbulas para apanhar os restos de pedaços da presa, um comportamento que eu não tenha visto antes num besouro.

Foto: Esta aranha encontrada pela Manticora não teve hipóteses – em poucos segundos tudo o que restava do animal era uma pilha de partes do corpo. 

 

As Manticoras têm um padrão bimodal de actividade, caçando principalmente no início da manhã e, em seguida, novamente por volta do pôr-do-sol e, ao contrário de um equívoco frequentemente repetido, eles não são nocturnos. Isto é provavelmente por causa da concorrência de outros besouros terrestres, principalmente nocturnos (Anthia and Termophilum), que também são comuns aqui.

Foto: Uma Manticora macho com a sua presa

 

A descoberta da Manticora em Gorongosa também me resolveu um pequeno mistério. Há cerca de uma semana atrás eu testemunhei uma estranha visão - uma grande formiga-leão do género Palpares, um insecto do tamanho de um pequeno pássaro, foi desaparecendo lentamente, de cabeça para baixo, num buraco perfeitamente redondo no chão. Isto não fazia sentido, e eu tinha que ver o que estava a causar esse comportamento. Tentei puxar a formiga-leão para fora e algo a puxou para trás. Mas a força do animal mistério não se podia comparar à minha “poderosa força” humana, e libertei a formiga-leão, mas não antes de ter um vislumbre de uma grande cabeça, chata e com o tamanho e a forma de um centavo, desaparecendo em profundidade no túnel perfeitamente vertical na chão. Os besouros-tigre têm larvas que se comportam exactamente desta maneira, e agora estou convencido de que roubei uma presa a uma larva de Manticora. Da próxima vez que eu vir um túnel semelhante vou tentar encontrar a larva e fotografá-la.

Foto: Eu li em vários lugares que as enormes mandíbulas da Manticora macho não eram boas para apanhar presas – não é verdade, são de facto instrumentos adequados  e mortíferos! 

 

Por Piotr Naskrecki

 

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Categoria: 
Diários da Selva