"Juntos" a espalhar uma mensagem

16 Maio, 2013

A Dra Dina Romo é a médica residente do Centro de Saúde Global do Monte Sinai que passou um mês a colaborar com o programa EcoSaúde. Aqui, ela descreve o seu trabalho na organização de um grupo de teatro composto por jovens, para uma actuação especial agendada para o dia 7 de Abril, Dia da Mulher Moçambicana, que incidiu sobre a Violência no Género, HIV e planeamento familiar. O evento teve lugar na Vila da Gorongosa e foi organizado por funcionários do governo local, que convidaram associações e grupos locais a contribuirem com peças culturais e educacionais para o evento. O Projecto de Restauração da Gorongosa, através do programa EcoSaúde, organizou uma peça de teatro, dança e uma partida de futebol. O dia foi uma grande festa com a participação do Administrador Distrital, do Presidente do Município, do Director da Educação, do Chefe de Polícia e centenas de membros da comunidade. Houve também uma marcha pela cidade, dois jogos de futebol amigáveis ​​(um para homens e outro para mulheres), e um almoço de comemoração para os funcionários e parceiros do parque. Mulheres técnicas de saúde comunitária (APE’s) e parteiras tradicionais também se juntaram às celebrações.

Foto: Pessoal do Parque Nacional da Gorongosa a apresentar uma dança tradicional.

 

Foto: Equipa de futebol do Parque  Nacionalda Gorongosa que ganhou o jogo amigável de futebol. Estamos também a trabalhar com os membros da equipa de futebol para espalharem a mensagem sobre a prevenção do  HIV entre os jovens. 

 

Como pediatra e futura médica de adolescentes, agarrei a oportunidade de trabalhar com o grupo de teatro composto por adolescentes, JUNTOS, cujo desafio era educar e ajudar a capacitar a comunidade sobre questões de saúde. Eu estava um pouco céptica no início, já que os adolescentes muitas vezes provam ser de difícil envolvimento em questões "sérias". Contudo, a partir do momento que eu conheci o grupo, o JUNTOS provou-me que eu estava errada.

 

Conhecemo-nos durante a nossa viagem de autocarro para a escola primária da aldeia local onde o grupo ia realizar um peça curta comemorativa do Dia Mundial da Floresta. Mais de vinte estudantes do ensino médio empilharam-se na parte de trás da nossa minibus e, antes mesmo de o motorista meter a marcha para nos colocar em movimento, este grupo de adolescentes revelou-se animado, enérgico e cheio de vida. Dei comigo a bater o pé ao seu ritmo, enquanto cantavam e dançavam nos seus lugares, durante todo o caminho para o nosso destino. Saíram da minibus enquanto eram acolhidos por dezenas de crianças que lhes davam as boas vindas, entoando a sua própria canção de saudação. Ao invés de pararem para ouvir, o grupo JUNTOS fez o que sabe fazer melhor e juntou-se ao entretenimento. Eles conseguiram dinamizar a multidão de crianças, mas, mais importante, quando chegou a hora da sua actuação, foram capazes de envolver plenamente as crianças para lhes fazer chegar a sua mensagem do dia. A partir de então, as minhas dúvidas desvaneceram. Eles eram os mensageiros perfeitos para envolver a comunidade.

Foto: Dra. Dina Romo com os membros do grupo de teatro JUNTOS durante um ensaio.

 

A actuação seguinte da digressão aconteceria no dia da Mulher Moçambicana. Aproveitamos a oportunidade para realizar o espectáculo num palco da comunidade, de modo a conseguir espalhar a nossa mensagem sobre Violência Baseada no Género, Planeamento Familiar e testagem de HIV. Trabalhamos em estreita colaboração com os professores de teatro, com a unidade policial de violência doméstica e com os estudantes, de modo a termos a certeza de que os temas e as mensagens eram claros e relacionáveis ​​com o nosso público. Os estudantes trabalharam incansavelmente e com entusiasmo para que as suas falas saíssem bem e assim foi.

 

Eles contaram uma história infelizmente vivida por muitos: uma família com mais filhos do que recursos, uma mãe que quer o melhor para seus filhos, desejos que só são atendidos pelo abuso físico e mental de um marido dominador, que exige obediência com uma vara na mão. A história continua até ao ponto em que a mãe perde o bebê em consequência infeliz, mas real, da violência doméstica. Ela também descobre que é seropositiva, provavelmente em virtude de actos de infidelidade do marido. A matrona (parteira tradicional) é a heroína da história. Ela devota o seu apoio a uma esposa e mãe que sofre e ajuda-a a encontrar a protecção das autoridades locais, encaminha-a ao hospital para tratar das suas feridas físicas e mentais. Esta história pode ser um pouco pesada para alguns mas o seu objectivo é expor estas questões e "colocá-las a nu", de modo a que o público e a comunidade possam ganhar a consciência de que existe ajuda e recursos disponíveis para estas questões. Mais importante ainda, capacita aqueles que sofrem em silêncio, assegurando-lhes que as suas vozes também podem e devem ser ouvidas.

Foto: JUNTOS a representar no palco da comunidade, na presença de funcionários distritais e memebros da comunidade. 

 

Quando o grupo de teatro finalmente subiu ao palco na Vila da Gorongosa, no dia da Mulher, houve um burburinho e distracção na plateia lotada, mas, assim que o nosso primeiro actor estudante encarnou a sua personagem, os olhares mudaram e a atenção voltou-se para o palco, para os actores e, mais importante, para a sua mensagem. À medida que o espectáculo decorria, ficava claro que o público estava a acompanhar, cativado pelo desempenho de JUNTOS. O público explodiu em aplausos quando JUNTOS fez a saudação final e saiu do palco. Humildemente, eu aplaudi-os também, sobretudo porque eles provaram não serem os adolescentes imaturos que muitos acreditam que sejam, nesta faixa etária. Ao invés, provaram ser educadores comunitários e defensores da comunidade maduros.  O seu nome assenta-lhes bem, "Juntos", já que unidos com a comunidade e juntamente connosco, esperamos continuar a espalhar a nossa mensagem, de comunidade em comunidade.

 

Por Dra. Dina Romo

 

Categoria: 
Diários da Selva