Investigando os Insectos: Regresso à Gorongosa

18 Março, 2013

Ontem cheguei ao espectacular Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique. Da última vez que aqui estive o lugar estava seco e poeirento, mas agora, no final da época das chuvas a vegetação é de um verde luxuriante e depois das agruras do inverno de Boston sinto na minha garganta um ar agradavelmente húmido. Durante o dia, as florestas da Gorongosa vibram com os sons das cigarras e dos gafanhotos, enquanto à noite se ouvem os grilos e as rãs, aleatoriamente intercaladas com os gritos de fazer gelar o sangue dos gálagos. No meu primeiro passeio depois de escurecer eu contei 11 espécies de louva-a-deus, e imediatamente encontrei três espécies de esperanças (“katydids”) que eu não tinha visto durante a minha visita anterior. Os caminhos de areia ao redor do acampamento principal do Parque são como arenas romanas cheias de carnificinas provocadas por solífugos (Class: arachnida) e besouros gigantes. Cada lâmpada ao longo dos caminhos de areia do acampamento é obscurecida por nuvens de mariposas, besouros e formigas, e debaixo de cada uma senta-se um sapo gordo, ingerindo o maná sazonal. É o paraíso.

 

Foto: Uma das primeiras esperanças que vi foi uma fêmea de Horatosphaga serrifera, uma espécie difícil de encontrar, sendo apenas conhecidas uma meia dúzia de espécimes. Este grupo de esperanças tem elevado dimorfismo sexual e os machos não se parecem em nada com estas fêmeas, robustas e incapazes de voar. 

 

O objectivo da minha visita à Gorongosa é de levar a cabo uma investigação durante um mês sobre as plantas e os animais do Planalto de Cheringoma, a pouco explorada borda oriental do Grande Vale do Rift Africano, do qual Gorongosa é a ponta mais ao sul. Em poucas semanas, um grande grupo de biólogos chegará ao parque, e irá localizar, registar, fotografar, obter amostras, medir, pesar, seguir, rastrear, e triangular cada planta, mamífero, ave, réptil, rã, besouro, formiga, esperança e louva-a-deus que viva aqui. Não vamos deixar uma pedra que não tenha sido virada, um ramo que não tenha sido inspeccionado para ver se tem  formigas, ou um monte de esterco por ver se tem besouros. Eu não ficaria surpreendido se, uma vez que todo o material recolhido for processado e identificado, formos  capazes de dobrar o número de espécies registadas da Gorongosa, que está actualmente confirmado em 1.790 animais e plantas. Mas antes que isso aconteça ainda há muito trabalho a fazer e amanhã Marc Stalmans, o Director dos Serviços Científicos da Gorongosa, e eu iremos sair numa viagem de reconhecimento para seleccionar os locais dos acampamentos para a investigação.

 

Como cientista estou absolutamente atordoado e excitadíssimo sobre o que vamos encontrar e documentar, e como um fotógrafo de natureza estou ansioso para apontar a minha lente para tudo e todos os que se cruzarem o nosso caminho no Planalto de Cheringoma. Em preparação para esta oportunidade única eu tinha embalado a minha novíssima Canon 400mm; uma nova engenhoca chamada “NeroTrigger” para fotografar remotamente alguns animais nocturnos que raramente se deixam ver; um conjunto de “flashes” e lentes macro; e um contentor à prova de água para a minha câmara para tirar algumas fotos da vida subaquática. Ao todo, são excelente peças do meu equipamento. É, portanto, lamentável que tudo isso se tenha perdido no caminho para Moçambique. A South African Airlines alegremente ficou com a minha bagagem e um grande maço de notas pela mala extra, mas de alguma forma esqueceu-se da parte fundamental do negócio: a entrega. Existe uma grande mala Pelican com equipamento no valor de US $12.000 vagando algures nas regiões inferiores da indústria da aviação, e eu só espero que em algum momento ela vá ressurgir e que eu possa reunir-me de novo com o meu “amado” equipamento. Enquanto isso eu vou fazer o que puder com o que tenho, e talvez as limitações do meu equipamento actual me estimulem a ser mais criativo. Não perca os próximos episódios.

 

Foto: Debaixo dos meus pés: carnificina. Um grande besouro Anthia matou outro espécime e agora está a ingerir as partes macias que mais aprecia - os órgãos genitais feitos em pedaços.

 

Por Piotr Naskrecki

 

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Diários da Selva