Gorongosa vista de cima

10 Maio, 2013

Por Grainne Keegan - Até ao dia de ontem, quando tive a incrível sorte de conseguir uma boleia num passeio de helicóptero, eu não fazia ideia de que voar poderia saber tão bem quanto... bem, quanto voar. Eu não desgosto de voar, (a noção de ir a algum lugar novo, ou de voltar para casa, é ainda suficiente para me fazer ansiar por comida), mas estar num voo normal é ainda menos confortável e romântico do que estar num autocarro. Mas um helicóptero? Ora AÍ ESTÁ um pássaro diferente!

Foto: Por Jay Vavra

 

Vou voar por cima do Parque Nacional da Gorongosa com o Justino, gestor de conservação, o Quentin, um especialista em agricultura, e o Mike, o piloto do helicóptero. Foi-me oferecido o banco da frente, ao lado de Mike, já que é a minha primeira (e possivelmente única) vez num helicóptero. Estamos a voar rumo a  Xivulo, a oeste do Acampamento de Chitengo, de modo a que Justino possa, de cima, deitar um olho à actividade humana no Parque.

Foto: Por Jay Vavra

 

O helicóptero levanta da pista, o meu estômago cai um pouco, mas a elevação causa uma sensação maravilhosa. Em poucos minutos, estamos a sobrevoar a floresta. As portas do helicóptero foram removidas e posso sentir o ar quente lá de fora a passar por mim. Estamos a baixa altitude, muito mais baixa do que uma aeronave comercial, então a sensação é como se fossemos parte da paisagem, ao invés de espreitar para ela através de uma pequena janela.

Foto: O Lago Urema (por Piotr Naskrecki)

 

De cima, posso ver claramente a colcha de retalhos natural, o arco-íris de verdes que compõem o Parque. Eu amo a cor, (sou irlandesa, como tal, legalmente obrigada a isso), mas mesmo que eu não fosse, ter-me-ia convertido a partir de hoje. Os vários tons revelados à medida que sobrevoamos o Parque rivalizam com as 40 tonalidades da Irlanda. Acácias escuras raquíticas, palmeiras cinza e capim em jeito de palha dão lugar a prados verdes e brilhantes, onde pastam impalas e lagoas de nenúfares planas e verdes, quando chegamos à planície aluvial. Através do verde vibrante das planícies aluviais, vejo longas e sinuosas pistas de água por entre a vegetação.

"Hipopótamo?" Pergunto ao Mike através dos headfones

"É, talvez. Ou talvez Inhacoso - É muito raso lá em baixo"

As planícies aluviais estão, de novo, cheias de actividade. Antílopes, macacos-cães e facoceros pastam e trotam sob o helicóptero e uma profusão de aves diferentes fornece manchas de cor no tapete verde.

Foto: Impalas (Por Piotr Naskrecki)

 

Passada a planície aluvial, sobrevoamos um prado de covas pequenas, sarapintado de depressões rasas curiosas (Mike explica-me que podem ser os restos de ninhos de peixe, mas ninguém tem a certeza) e continuamos por vários tipos diferentes de planícies com arbustos. Cada mudança de tom conta uma história de saúde do solo, chuvas e actividade animal. Voamos sobre um bom número de ecossistemas diferentes (a Gorongosa tem pelo menos 54 ecossistemas). Perto de uma floresta de árvores mopane, o Mike vê uma pala-pala,, que não se assusta, olhando para o helicóptero, o seu focinho como uma máscara ilegível.

Foto: Pala-pala (Por Paul Kerrison)

 

Não demora muito até chegarmos a Xivulo, por onde corre um rio raso que Justino pede a Mike para seguir. Não há quase nenhuma água corrente, então tudo o que se pode ver a partir do ar é um longo trilho sinuoso de grama pálida, correndo por entre as árvores. Depois de Justino seguir o trilho verde por alguns minutos, é hora de regressar para o acampamento. Os helicóptero gira graciosamente, virando para leste.

Foto: Por Piotr Naskrecki

 

"Mágico", diz Quentin, através dos headfones, ecoando os meus pensamentos. Abaixo de nós, os pássaros voam pelas copas das árvores e, à medida que voamos de volta ao longo da planície aluvial, um bando de marabus levantam voo. Avistamos um oribi solitário e um enorme rebanho de impalas. Quando nos aproximamos do rio, fico maravilhada ao ver hipopótamos na água e crocodilos na margem, a aquecerem-se, quando;

"Olha!", diz o Mike "Ele!"

Debaixo do helicóptero, perto do rio, vejo o meu primeiro elefante na selva, com o que parecem ser duas crias a correr em direcção a ele. Mike sobe, dando o espaço aos elefantes, e à medida que ascendemos, Quentin chama "Olha, outro ajuntamento!" Os meus olhos ajustam-se ao cinza contra o verde, e vejo outro elefante, e mais outro. Começo a contar e, quando chego ao número de quarenta, paro, apenas para olhar, apreciando a visão desta enorme manada abaixo de nós. Mikes acabaria por dizer mais tarde que ele contou 150 elefantes. É uma paisagem em movimento e um tributo à resiliência deste belo Éden.. 

Foto: Elefantes (Por Paul Kerrison)

 

Categoria: 
Diários da Selva