Fazendo o papel de um detective

30 Março, 2013

Para um entomólogo haverá poucos prazeres maiores na vida do que chegar a uma nova área geográfica e deparar-se com insectos desconhecidos e misteriosos, muitas vezes, alguns que nunca suspeitou que sequer existiam. Eu tive um momento como este na noite passada, quando deparei com um estranho insecto azul metálico, cerca de 25 mm de comprimento, que estava a andar na areia de Chitengo. O meu primeiro pensamento foi que devia ser um “blattodean”, alguns dos quais são desprovidos de asas e têm um brilho metálico escuro. Mas quando eu lhe peguei, percebi que era uma larva de besouro. Eu sabia o que era porque o insecto não tinha tarsos bem desenvolvidos ou quaisquer vestígios de asas, e as suas antenas consistia em apenas dois artigos (embora um deles fosse excepcionalmente longo). Mas a que família pertencia? Os besouros terrestres (Carabidae) muitas vezes têm estranhas larvas activas que caçam insectos em áreas arenosas, e este foi o meu palpite.

 

Foto: Larvas misteriosas numa cavidade de árvore em Gorongosa.

 

Então aconteceu eu olhar para o tronco de uma árvore próxima e ver várias dezenas destas larvas amontoados numa pequena cavidade a cerca de 2 m acima do solo; a que eu encontrei devia ter caído da árvore e estava tentando encontrar o seu caminho de volta a casa. Cheguei à conclusão de que não poderia ser um carabídeo porque as suas larvas são predadores terrestres e, portanto, seria pouco provável que (a) vivessem bem alto numa árvore e (b) que fizessem parte de uma grande agregação.

 

A poucos metros de distância outra árvore tinha uma segunda colónia destes insectos, mas estes eram um pouco mais velhos. Embora ainda houvesse algumas larvas a movimentarem-se, muitas já se tinham metamorfoseado em pupae, e estavam penduradas como em forma de cacho de uvas, a fazer lembrar uma cena do filme "Alien". Haviam cerca de 50 pendurados juntos, mas a cavidade da árvore era muito profunda e estreita, e eu não consegui uma boa foto do grupo. Eu nunca tinha visto pupae de besouro penduradas numa formação destas. O mistério estava a avolumar-se.

 

Foto: Um conjunto de pupae numa cavidade de árvore.

 

Iluminei a cavidade e meti a minha mão para tirar uma das pupae. Naquele momento reparei em dois besouros adultos, que pareciam estar a guardando o grupo. Eles eram claramente um macho e uma fêmea já que um indivíduo era um pouco maior e tinha pernas dianteiras distintamente espessadas com um par de espinhos grandes; eu assumi que era o macho. Ambos os besouros fugiram quando eu coloquei a minha mão, mas rapidamente voltaram e assumiram a mesma posição perto da formação de pupae.

 

E eles eram escaravelhos pretos, ou Tenebrionidae! Uma das primeiras coisas que se aprende numa aula de entomologia é que os tenebrionídeos têm larvas vermiformes alongadas que se escondem no solo e, por essa razão, nunca me passou pela cabeça que as larvas azuis à solta na árvore podiam pertencer a esta família . Uma rápida leitura de literatura sobre coleópteros revelou que os meus besouros podem ser membros de um grande e quase cosmopolita género Strongylium, de qual algumas espécies são arborícolas. Se algum entomólogo estiver a ler isto e tiver outra ideia, eu gostaria de o saber – ser surpreendido por um insecto desconhecido é um prazer, mas não conseguir saber a sua identidade é uma tortura.

 

Foto: Três estágios de desenvolvimento de um besouro mistério, encontrados juntos na mesma árvore "colónia" e provisoriamente identificados como Strongylium sp. (Tenebrionidae).

 

Por Piotr Naskrecki

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Diários da Selva