As esperanças silvestres da Gorongosa

26 Abril, 2013

Algumas noites atrás, quando eu estava a caminhar em direcção ao meu bungalow perto da vedação do acampamento de Chitengo, ouvi um cantar de grilo que eu não consegui reconhecer. Os cantares de grilos são inconfundíveis pela sua limpidez e quase melodiosa qualidade, muito diferente do cantar de uma cigarra ou de uma esperança, que tende a ser mais "barulhento". Mas este som era muito puro, quase de pássaro, e estava a vir do alto de uma árvore. Eu esperava encontrar um grilo preto e de grande asas (Homoeogryllus) entre as folhas, mas para minha alegria o cantador mistério acabou por ser uma linda esperança silvestre de patas azuis (Zabalius ophthalmicus). Esta e algumas espécies relacionadas produzem alguns dos tons mais puros, do tipo assobio, uma raridade entre as esperanças.

Foto: Uma esperança silvestre elegante macho (Acauloplax exigua) na sua típica posição de repouso

 

As esperanças silvestres (Pseudophyllinae) não são comuns nesta parte do continente. A maior diversidade destes insectos é encontrada nas florestas tropicais da África Central e Ocidental, onde a maioria vive nas altas copas das árvores. Em Moçambique, eu esperava encontrar apenas quatro espécies, e de facto encontrei-as todas em Gorongosa (o que, naturalmente, não quer dizer que não haja mais para serem descobertas). Praticamente todos as esperanças silvestres, de acordo com o seu nome comum, estão associadas com as florestas e habitats lenhosos, e poucas são encontradas em plena savana.

Foto: Esperança da casca maior (Cymatomerella spilophora) numa floresta da Gorongosa

 

As esperanças silvestres da África Austral exibem dois tipos muito distintos de mimesis (camuflagem). As espécies encontradas na copa das árvores de folhas largas (e.g., Ficus) são excelentes imitadores de folhagem, e inclusive possuem veios do tipo das folhas nas suas asas e falsas manchas fúngicas ou outras "imperfeições". Durante o dia, eles estão imóveis com as suas asas abertas e planas contra a superfície inferior da folha, e são absolutamente impossíveis de encontrar. (Curiosamente, esse tipo de comportamento não ocorre em qualquer espécie de esperança que encontramos no Novo Mundo – todas as esperanças Norte e Sul-Americanas mantém as suas asas na posição vertical, e durante o dia repousam em galhos com as asas para cima, imitando uma pequena folha.)

A canção da esperança silvestre de patas azuis (Zabalius ophthalmicus). Clique aqui para ouvir a gravação: primeiro à velocidade normal, seguida de um fragmento com uma velocidade reduzida por um  factor de 10 (para ouvintes com problemas em ouvir as esperanças, i.e., a maioria dos homens com mais de 35 anos).

 

O segundo grupo de espécies de esperanças silvestres de Moçambique imita a casca das árvores. Essas espécies estão associadas a habitats mais abertos, principalmente florestas de miombo ou mopane, e passam o dia pousadas em troncos de árvores de folhas pequenas, como a Acacia ou Brachystegia. As asas ficam abertas e planas contra a casca, e a sua coloração é malhada, assemelhando-se à superfície do tronco. Além disso, as suas patas são fortemente achatadas e cobertas de pêlos densos, o que ajuda a eliminar a sombra dos seus corpos.

Foto: Uma esperança silvestre elegante fêmea, com as suas asas a simular uma folha com veios e falsas imperfeições.

 

Uma das espécies de Moçambique, a esperança da casca comum (Cymatomera denticollis), é incomum entre as esperanças pela sua capacidade de produzir defesas químicas. A produção de produtos químicos repelentes foi documentada em algumas espécies neo-tropicais, mas este é o primeiro exemplo de um tal comportamento em uma espécie africana. Esses insectos, quando ameaçados por um predador, agitam as suas asas e revelam, um abdómen brilhantemente colorido de tons vermelhos, alaranjados e pretos. Ao mesmo tempo, uma glândula no seu abdómen expele um líquido com um odor forte. Não tive oportunidade de olhar para a composição química dessa substância, mas o seu cheiro faz-me lembrar o que é produzido pelos seus (não relacionados) homólogos Sul-Americanos. Nessas esperanças as substâncias repelentes foram identificados como methylpyrazines, e eu não ficaria surpreendido se as espécies africanas produzissem compostos semelhantes.

Foto: Esperanças silvestres da Gorongosa nas suas típicas posições de repouso: Esperança silvestre de patas azuis (Zabalius ophthalmicus), Esperança silvestre elegante (Acauloplax exigua), Esperança da casca comum (Cymatomera denticollis) e Esperança da casca maior (Cymatomerella spilophora).

 

Por Piotr Naskrecki

 

Leia mais no blog The Smaller Majority

 

Categoria: 
Diários da Selva