Como se fosse Casca de Árvore

6 Fevereiro, 2013

Quando li pela primeira vez "Out of Africa", o qual continua a ser até hoje um dos meus livros favoritos, a única coisa que me deixou estranhamente insatisfeito foi a falta de atenção às árvores da savana - o seu cheiro e cores, a textura da sua casca e, mais importante, todas as criaturas maravilhosas que o autor deve ter visto entre as folhas e galhos. Como poderia Isak Dinesen dedicar tanta atenção aos leões e a um romance ilícito, e não mencionar os louva-a-deus (amorphoscelid mantids)? Qual era o problema dele? Mas, talvez, eu estivesse a pedir demasiado - afinal, nem toda a gente passou a sua infância a apanhar artrópodes e mariposas nos troncos das árvores... eu não era feliz até que não passava a minha mão ao longo do tronco liso de uma acácia da África Austral, e podia suspirar com a súbita descoberta de um lagarto “escondido” mas à vista de todos.

Quantos insectos consegue ver? Fiquei emocionado quando descobri que os insectos lanterna (Druentia variegata) da Gorongosa são visitados por diversas espécies de insectos que procuram o seu doce orvalho de mel.

 

A casca de árvore não parece ser um habitat particularmente interessante para se viver. Possui essencialmente duas dimensões, é plana e desprovida de cores brilhantes. Claro que parece assim somente da nossa gigantesca perspectiva humana. De fato a casca é um ecossistema rico e diversificado, repleto de fendas profundas e vales, cobertos por uma vegetação fantástica, e tão perigosa para viver como o coração da savana.

 

A última vez que visitei África foi há alguns meses atrás, nas planícies do espectacular Parque Nacional da Gorongosa, Moçambique. Era o início da estação seca, e o capim já estava a ficar amarelo e rijo. À medida que os dias iam ficando mais escaldantes, os insectos estavam cada vez menos activos nos campos, e assim eu voltei a minha atenção para as superfícies manchadas dos troncos das árvore, na esperança de encontrar alguns tesouros escondidos. E não fiquei decepcionado.

A esperança da casca (Cymatomera denticollis) parece-se mesmo com uma lasca da casca.

 

A minha primeira descoberta foi algo acidental – que se revelou ser um dos cantores mais maravilhosos da natureza, fabricante de melodiosos trinados, semelhantes aos dos pássaros, e eu encontrei-o, graças ao apelo da minha própria natureza. Com uma garrafa de cerveja na mão, eu estava a caminhar para uma latrina (eu estava numa pequena reunião social num dos acampamentos), quando a minha outra mão encontrou algo macio, aveludado e, claramente, vivo em uma haste de uma árvore de pequeno porte. O que em qualquer outra pessoa teria provocado uma imediata retirada, os muitos anos de busca de todas as coisas pequenas e ágeis levaram a minha mão instintivamente a agarrar bem o animal. Segurando a árvore e ainda sem saber o que estava na minha mão, coloquei a garrafa de cerveja no chão e gentilmente puxei o animal para fora da casca. Quando eu percebi o que eu estava a segurar, eu por pouco não concretizava a razão da minha passeata nocturna (ou seja, eu quase fiz xixi nas calças) – era uma esperança da casca (Cymatomera denticollis), uma criatura arisca que eu só tinha visto uma vez uma década antes, e que estava a tentar encontrar novamente desde então.

Quando ameaçada, a esperança da casca agita as suas asas para revelar uma coloração ameaçadora e pulveriza o atacante com um químico mal cheiroso.

 

Uma esperança da casca não é nada parecida com a típica esperança, verde e semelhante às folhas. O seu corpo é liso, coberto com penugem fina que os faz parecer quentes e macios, e as pernas têm pequenos lobos que fazem com que se disfarcem perfeitamente entre os pedaços de casca cobertos de líquen. Mas este comportamento críptico não é a sua única defesa - ao sentir-se ameaçada, a esperança agita as suas asas, revelando um abdómen brilhantemente amarelo e preto, e envia uma nuvem de substâncias químicas nocivas, com odor forte e desagradável. E é exactamente isso o que aconteceu quando eu abri minha mão para ver o que tinha dentro, e quase deixei cair este precioso animal.

As árvores da savana da África Austra são o lar de gafanhotos sem asas da família Lentulidae. Eles exibem muitas características típicas de estágios juvenis, e os entomologistas especulam que este grupo pode ser um exemplo de neotenia (Mecostibus mopanei, Gorongosa).

 

Ao longo dos próximos dois meses, vou passar muitas horas a investigar a superfície das cascas de árvores na Gorongosa. Esta simples actividade permitiu-me descobrir e recolher não só uma vasta gama de criaturas fascinantes, como também fazer várias descobertas interessantes sobre o seu comportamento. Entre outras, achei que os insectos lanterna Africanos (Fulgoridae) podem fazer parte de uma interacção trófica complexa, semelhante à que estudei na Costa Rica, e eu vou estudar este sistema ainda este ano. A maioria das pessoas vêm à Gorongosa para ver as paisagens do Vale do Rift e os leões. Eu estou a voltar para analisar as cascas rachadas e os louva-a-deus nas árvores.

Um jovem louva-a-deus (Theopompa sp.) é quase invisível numa casca coberta de líquen, e é tão perigoso para os animais que vivem em árvores como um leão o é para os herbívoros das planícies da Gorongosa.

 

Por Piotr Naskrecki

 

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