A Casa das Aranhas

16 Abril, 2014

Por Edward O. Wilson - No final de uma longa estrada esburacada no Parque fica um artefacto visível no meio da natureza. Construída em 1970, a Casa dos Hipopótamos era o ponto de observação preferencial, o miradouro antigo, a partir do qual os turistas endinheirados, de bebida fresca na mão, admiravam manadas de animais selvagens enquanto estes pastavam sobre a vasta planície alagada em baixo. Hoje, as manadas estão de volta, mas a casa é uma ruína raramente visitada. Durante a guerra civil em Moçambique, quase todos os edifícios do Parque Nacional da Gorongosa foram derrubados ou desintegraram-se, deixando para trás alguns restos crivados de balas. A casa foi reduzida a uma carcaça da sua traça original.

 

Os restos do esqueleto da Casa dos Hipopótamos, em tempos um movimentado restaurante e ponto de observação. 

 

Quando visitei a Casa dos Hipopótamos pela primeira vez, Moçambique ia a meio da estação seca. Excepto ao longo dos cursos de água, a vegetação da Gorongosa era castanha e escassa. Os insectos continuavam abundantes, mas mais difíceis de localizar. Tinham-me dito que as aranhas, as grandes, eram abundantes na Casa, mas eu não estava muito preparado para o que encontrei. O interior do edifício em ruínas era pó seco. O chão da casa, os postes e o tecto tinha sido fustigados pelo vento e estavam cobertos de pó. Nenhuma vegetação chegou ao interior a partir de fora e, exceptuando algumas osgas pequenas sobre os pilares, não havia qualquer sinal imediato de vida. Em vez disso, teias rasgadas e longos fios de seda pendiam no tecto, como se de decorações fantasmagóricas numa casa assombrada se tratasse. As teias baloiçavam suavemente para trás e para a frente ao ritmo da leve brisa ocasional. Nenhum outro movimento ou som veio do espaço, aparentemente vazio.

 

Cada aranha na Casa dos Hipopótamos estava abrigada num retiro tubular de seda, um comportamento típico das espécies do género Nephilengys. 

 

Onde estavam as aranhas com que eu estava a contar? Não se conseguia ver nenhuma. Mas eu sabia que deveriam estar lá, em algum lugar, vivas e talvez a observar-nos. A ideia de uma horda aracnídea escondida, pronta para sair a correr, deixou-me desconfortável. Pouco depois acabei por ver outra coisa: objectos redondos incrustados no tecto, empoeirados e silenciosos. Os meus companheiros e eu apanhamos um pedaço de pau no chão do lado de fora, suficientemente longo para alcançar o tecto e arrancamos duas das bolsas. Deparamos com bolsas de ovos de seda, sem dúvida, feitas por aranhas, mas estavam secas e vazias; obviamente, não estávamos na época de reprodução. As aranhas em si permaneciam escondidas. Onde estariam? Fiquei então ainda mais apreensivo. 

 

Vimos outras bolsas alongadas muito maiores, espalhadas pelo tecto áspero e desgastado. Na ponta de cada uma das bolsas estava uma abertura circular que dava para um interior oco. Usando uma lanterna e olhando directamente para baixo da câmara, podíamos ver o que havia lá dentro. Na parte traseira de cada bolsa estava uma grande aranha agachada, voltada para fora, deixando visíveis os seus dentes venenosos, olhos e a parte da frente das suas pernas bem agrupadas. Eu queria ver um espécime suficientemente bem para identificá-lo mas hesitei. Para ser franco, eu estava com medo destas aranhas que esperam agachadas. Sofro de aracnofobia ligeira. Este lugar assustador era o cenário perfeito para o pesadelo do aracnofóbico.

 

Seleccionamos uma das bolsas e cutucamo-la por dentro e por fora, mas a aranha manteve-se aconchegada no interior. Um dos meus colegas resolveu então assumir o comando. Rasgou a bolsa e balançou o morador desta para um saco plástico transparente. Por fim, eu podia ver o que tinha estado lá dentro. A aranha era encorpada, do tamanho de um dedal. Quando, de repente, abriu as suas pernas espinhosas, a sua largura quase triplicou.

 

Eu tinha resolvido o mistério da casa das aranhas, pelo menos em teoria. As criaturas nos sacos de seda eram tecelãs, membros da família de aranhas Nephilidae, chamadas tecelãs douradas. Viria mais tarde a esclarecer com um aracnólogo que se tratava da espécie Nephilengys cruentata. Algumas espécies de nephilids e as próximas araneids escondem-se em retiros junto às suas teias; outras permanecem nos centros das teias. Mas como é que poderia haver tantas aranhas desta mesma espécie amontoadas? Por que razão não existiam lá criaturas de qualquer outro tipo? A explicação que eu acreditava ser imediatamente clara. O piso inferior da Casa dos Hipopótamos é uma camada de betão. O interior é anormalmente seco. Porque o piso inferior não pode ser invadido por nenhum tipo de vegetação, poucas ou nenhuma outra forma de insecto ou aracnídeo pode viver lá. No entanto, não restam dúvidas de que insectos voadores atravessam o espaço aberto do andar de baixo, entrando por um lado e saindo pelo outro. Alguns podem parar lá para descansar. O destino da maior parte ou de todos é o mesmo: comida de aranha.

 

Um gafanhoto azarado aterrou numa teia da Casa dos Hipopótamos e foi imediatamente morto e envolto em seda por uma tecelã fêmea. 

 

A minha imaginação foi espicaçada por este pequeno mundo bizarro, mas mais ainda pela minha reacção ao mesmo. Quando levei a aranha capturada para o acampamento de Chitengo, descobri que seria incapaz de fazer dela uma amostra. Isto significaria resgatar o monstro para fora do plástico e fazê-la entrar numa garrafa de conservante. Então, simplesmente abri a janela traseira do meu quarto e deitei a aquela vida aprisionada para o chão em baixo, onde pelo menos ela terá hipótese de chegar a uma árvore ou edifício e de fazer um novo retiro de seda.

 

A tecelã dourada (Nephila senegalensis) é uma das maiores aranhas da Gorongosa. O seu nome advém da bonita coloração dourada da sua seda. 

 

Lembro-me perfeitamente do incidente que me levou a ter fobia de aranhas. Eu tinha oito anos de idade. Era o fim do verão e eu estava a explorar um terreno baldio perto da nossa casa. Havia várias aranhas tecelãs fêmeas adultas nas ervas daninhas altas, provavelmente aranhas de jardim comuns (Araneus diadematus), sentadas no centro das suas teias. Eu não pude resistir e aproximei-me o suficiente para ver todos os detalhes do corpo de uma das aranhas. Quando estava a cerca de um pé de distância dela, começou a mexer-se para trás e para a frente, de forma ameaçadora. Pensei que ela se preparava para saltar para cima de mim. Corri. Como se não bastasse, pouco depois vi um filme, cujo nome esqueci há muito, em que um homem está preso numa caverna. Estonteado, ele acaba emaranhado em teias de aranha penduradas por toda parte. Aranhas, daquelas grandes, descem na sua direcção, e. . .

 

A tecelã (Nephilengys cruentata) da Casa dos Hipopótamos. 

 

Aversões e fobias deste tipo, com a reacção extrema de pânico e suores frios, podem ser causadas por tão pouco quanto um simples e breve episódio. Raramente são causados ​​por uma experiência assustadora com uma faca, uma pistola, um automóvel ou qualquer outra invenção capaz de ferir ou matar. Por outro lado, estes medos fácil e rapidamente se associam à experiência do temor ancestral com os perigos da humanidade: cobras, aranhas, lobos, alturas, água corrente e espaços fechados. Durante milhões de anos de pré-história humana, foi necessária a grande visão darwiniana para obter resposta rápida e decisiva para as coisas que nos podem matar.

 

Então, perdoei a mim próprio pelo estremecimento de medo e repulsa que senti com as habitantes inofensivas da casa das aranhas. Para melhor me redimir, saliento ainda que as pessoas estão, na maioria dos casos, seguras por entre o que resta da natureza viva. Conquistámos os devoradores de homens há muito tempo, destruindo quase todos os grandes predadores dispostos a caçar humanos e capazes de o fazer. Eles sobrevivem nas nossas histórias e nas nossas lendas de monstros. Imaginámo-los a aparecerem silenciosamente de cavernas e pântanos, a emergirem das profundezas inexploradas do mar ou a descer, invisíveis, vindos de cima. Ande ou nade em qualquer habitat selvagem que ainda persite na Terra, mantenha o mesmo nível de cuidado que adoptaria numa rua da cidade e estará muito mais seguro do que na maioria dos ambientes urbanos. Use o bom senso: não nade com crocodilos; não chapinhe por entre as focas onde já foram avistados grandes tubarões brancos e, acima de tudo, nunca, jamais, corra até uma ursa mãe com os filhotes para ver melhor. O maior risco na natureza é o de doenças transmitidas por insectos - malária, dengue, leishmaniose, febre amarela - e estas podem ser mortais se não forem tratadas. Mas são transmitidas principalmente entre as pessoas. Podem ser facilmente evitadas e, em qualquer caso, representam menos risco para si do que a mistura patogénica que passa directamente de pessoa para pessoa em colonizações humanas.

 

As Tarântulas, conhecidas na África Austral como aranhas babuínos, podem parecer assustadoras mas são inofensivas em geral. A sua principal linha de defesa não é o seu veneno, mas os pêlos minusculos urticantes que cobrem todo o seu corpo. 

 

As aranhas assustadoras mas inofensivas da Casa dos Hipopótamos e todas as outras espécies animais de ambientes selvagens como os da Gorongosa, deixam-se guiar pelo instinto. Seguem religiosamente rotinas de vida e morte formadas ao longo de milhões de anos de evolução. As suas vidas frágeis são finamente ajustadas e abençoadas de modo a não representarem uma ameaça para os seres humanos. 

 

Piotr Naskrecki e Edward O. Wilson no Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique. 

 

Leia mais sobre a complexidade biológica e restauração do ecossistema fascinante do Parque Nacional da Gorongosa, em "Uma Janela para a Eternidade", um novo livro de EO Wilson, com fotos por P. Naskrecki (Simon & Schuster 2014).

 

Text Copyright © 2014 by Edward O. Wilson, Photographs Copyright © 2014 Piotr Naskrecki

 

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Diários da Selva