À Procura dos Leões

25 Abril, 2013

É um pouco antes do pôr do sol nas planícies de inundação do Lago Urema, no Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique, e eu estou de pé, muda, olhando o meu primeiro pôr do sol em África. O sol está baixo e define a silhueta de um bosque de árvores à beira da água, onde pequenos crocodilos de forma tubular correm em direcção à água à medida que nos aproximamos, e garças brancas passeiam entre os nenúfares brancos que cobrem a maior parte do lago. O lago está iluminado com um rosa metálico do outro mundo. Poderia ser um mar de mercúrio num outro planeta. Eu nunca vi uma cor igual. Gostaria de saber se alguém já viu, ou se esta tom de rosa particularmente intenso aconteceu apenas esta noite - uma combinação única do ângulo do sol, da poeira no ar da noite e um pequeno toque de magia. Estou convencida de que eu nunca tinha visto uma cor tão bonita, mas estou errada. Quando o sol se afunda abaixo do horizonte, a tonalidade avermelhada torna-se mais profunda, e as águas brilham com um rosa ainda mais intenso. Volto-me para a Tish, uma guia experiente no parque, e gaguejo:

“Tish, é ..." é tudo o que eu consigo dizer. Tish ri, e gentilmente termina a frase. "Sim, é bonito, não é?" Ela está muito habituada a turistas espantados.

Foto: Por Tish Grant (Bushfind)

 

É o meu segundo dia em África, onde vou passar os próximos dois meses numas férias de trabalho com a minha família. (James, o meu marido, é o Director de Media do Parque.) Enquanto estaremos aqui, vamos estar ao mesmo tempo que a Paola Bouley, uma cientista que vai investigar a população dos leões do Parque ao longo dos próximos anos, e a Paola, generosamente, permitiu-me ir com ela, Tish, e o Lucas, um fiscal do Parque, para o seu trabalho de noite. Que trabalho de noite? Encontrar leões!

 

A missão de Paola este ano é colocar um colar em seis dos cerca de 50 leões que residem no Parque Nacional da Gorongosa. Uma vez colocados os colares, ela vai ser capaz de controlar os seus movimentos, e reunir os dados que precisa para ter uma imagem mais clara de como os leões se estão a desenvolver no Parque. Mas, primeiro, ela tem que encontrá-los.

Foto: Por Ilze Wagenaar

 

Começamos a procurá-los ao anoitecer e continuámos até depois do anoitecer, à procura de pistas e de fezes (ou, como também lhe podemos chamar, cocó!), e de ouvir os rugidos dos leões. A poucas centenas de metros da beira de uma vala húmida, a Paola acha que viu algo na lama. Pegadas de leão. A Paola, a Tish e o Lucas saem para as examinar e perceber se são frescas. Ali perto, a Paola decidiu colocar uma câmara sensível ao movimento, no tronco de uma palmeira, onde ela espera capturar algumas imagens do bando de leões.

Foto: Por Jeff Reed

 

Os outros ensinam-me uma técnica linda para encontrar animais selvagens no escuro. Enquanto conduzimos lentamente através do mato, a Tish usa um potente foco de luz fora da janela do passageiro, e “varre” lentamente o capim alto, procurando o brilho revelador de olhos a reflectir a luz. "Não te preocupes" assegura-me a Paola "não os vais perder", e ela está certa. Avistamos pares e pares de olhos. Mas nenhum deles é de um leão. Impalas, imbabalas, e um par de crocodilos, mas não leões. Depois de algumas horas de procura, paramos num lugar um pouco mais elevado, desligamos o motor do carro, e sentamo-nos em silêncio, para ouvir os leões. Não ouvimos os leões, mas o ar reverbera com o som do cantar de um milhão de insectos, o grito ocasional dos macacos-cães, e os grunhidos dos facoceros.

"Já viste o céu?" Sussurrou a Paola. Eu olho para um céu brilhante com a luz das estrelas, a Via Láctea que se parece com um grande derramamento de pó de fadas.

Foto: Por Jeff Reed

 

Na volta para o acampamento de Chitengo, avistamos manguços, civetas e a Paola pergunta-me se eu gostaria de ir novamente amanhã de manhã. Respondo “Sim, sim, eu gostaria muito!”

 

A Paola apanhou-me às 3:30 da madrugada, e achei-a muito mais jovial do que se esperaria de alguém cuja jornada de trabalho começa tão cedo. "Ouviste-os?" Ela tinha ouvido os leões rugindo às duas horas, e outra vez às três, e portanto sente-se optimista sobre as suas possibilidades de ver o bando. Com muita excitação  entramos de volta no parque, fortalecidas por um café preto e forte e pela euforia. Enquanto nos dirigimos para as planícies, voltamos a ver civetas e manguços, e sobressaltámos vários noitibós nos seus lugares de descanso no centro da picada.

 

Esta manhã, não temos a Tish connosco, e então eu tive a oportunidade de “varrer” o capim com o foco de luz, à procura dos leões. Fica arrepiado com cada par de olhos, embora nenhum deles sejam leões, mas ainda assim, é maravilhoso ver a selva tão repleta de vida selvagem. Dirigimo-nos para perto de onde a Paola viu as pegadas de ontem, junto à água, onde ficamos rodeados de mosquitos. Apesar de estarmos cobertos de repelente, ficamos repletos deles - eles parecem estar a ser atraídos pela luz, e, finalmente, a Paola admite a derrota, e retiramo-nos para um lugar mais alto para nos coçarmos e escutar. Depois de mais algumas horas de encantamento, voltamos ao acampamento. Nós não vimos leões, mas eu consegui ver o meu primeiro amanhecer Africano, vi pegadas de elefante, vi impalas, e vi uma manada de pala-palas. Oribis, inhacosos e até calaus de solo (em perigo noutros lados, mas dando-se bem na Gorongosa).

Paola está um pouco desapontada por mim "Sinto muito que não tenhas conseguido ver leões", diz ela, "mas fica para a próxima". Eu não estou desapontada, e estou tão apaixonada pela natureza do lugar que honestamente acredito que se eu nunca vir leões, não me irei importar.

Foto: Por Jeff Reed

 

ACTUALIZAÇÃO - Poucos dias depois que eu saí com a Paola, ela avistou o bando, e ela e o Rui, o veterinário do Parque, colocaram o primeiro colar do ano num leão. Um dia depois, eu comecei a ver os leões. Siga o progresso da investigação Paola no nosso blog, e ajude-nos a apoiar o Projecto Leões da Gorongosa.

 

Por Grainne Keegan

 

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Diários da Selva